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Um grande homem

Domingo, 17 de Agosto de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor


Abaporu, Tarsila do Amaral, 1928

Tarcísio era um homem. E como a maioria dos homens, Tarcísio tinha um emprego. Tarcísio era um homem simples e seu emprego também era simples. Pedreiro. É verdade que ele gastava a maior parte do seu emprego destruindo as coisas, ao invés de construir. Cada dia ele levantava da cama às 6 horas da manhã com suas ferramentas brutas. Sua ferramenta de trabalho eram as mãos, grosseiras e com os nós inchados, elas circundavam a o cabo de madeira da marreta de 10 quilos e reduziam muros, pisos e pilares a entulho e pó.

Tarcísio trabalhava sem falar, as sobrancelhas juntas e a as mãos exangues de força. Os dentes cerrados e os músculos apedrejando sob a camiseta de marca de tinta, Tarcísio erguia a marreta e malhava a obra que outros homens como ele haviam erguido.

A grande envergadura dos braços levava a marreta a descrever um círculo muito amplo antes de esparramar com violência os vestígios de uma vida passada pelo chão.

Ainda sem pronunciar uma palavra, o grandalhão desajeitadamente seguia os companheiros para o bar. Debruçado como a maioria deles nas pequenas mesas de plástico, sua mão de pedra protegia um copinho de vidro. Reclusa em suas mãos, o pequeno receptáculo de pinga esvaziava-se. O cenho trancado de Tarcísio, no entanto, não dava sinais de esvair-se.

Os homens bebiam, à meia conversa. Tarcísio não ouvia. Não falava. Não sentia.

Naquela noite a bandeja de um garçom inclinou um pouco mais, os copos dançaram e brindaram brindes não pronunciados, e dos brindes eles se deitaram, fluindo cervejas e drinks pelas bordas até as costas de Tarcísio.

Tarcísio era um homem grande e ergueu-se lentamente, até quase o dobro da altura do garçom, que recolhia-se atrás dos copos que não haviam terminado de se chocar uns contra os outros.

Homens levantaram. Tarcísio ergueu as mãos calejadas em direção ao rosto do garçom e lentamente, coletou os copos da bandeja e ergueu-os, agora vazios, seu conteúdo empastando suas roupas. O garçom apenas olhou. Tarcísio sorriu e lhe deu um tapinha no ombro.

As mãos de pedra, novamente tragaram o copinho de pinga. E o silêncio voltou.

Tarcísio era um homem bom.
 



coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Um comentário por misericórida!