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Um garoto chamado Leandro Leal

Sexta, 6 de Abril de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Desnecessário falar do meu gosto por criticas. Afinal, foi o que determinou a escolha do tema desta coluna. Por critica, não me refiro apenas ao que faço a cada quinzena, que é eleger, indiscriminadamente, um assunto para Cristo – aliás, não se espante se o próprio for o alvo num texto futuro. Sou igualmente chegado às críticas jornalísticas, da cultural à política – a gastronômica nem tanto; sempre me dá fome. Análises gabaritadas apontam aspectos até então despercebidos, nos dão um maior entendimento sobre o protecionismo comercial canadense e as comédias adolescentes. Até por isso, se o que você quer é dar umas inocentes gargalhadas, o melhor é não ler.

Mais do que entusiasta das criticas, posso dizer que estou aberto a elas. Papo furado nada. Se não estivesse, por que eu pagaria alguém para fazê-las? Porque, resumidamente, o trabalho de um psicólogo é esse: tecer criticas isentas e fundamentadas, que, como as encontradas nos periódicos, iluminam pontos desconhecidos e propõem caminhos. Aposto que foi num relato sobre terapia a primeira vez em que juntaram as palavras “construtiva” e “crítica”.

Outro sinal óbvio da minha disposição aos ovos e tomates é o fato de tornar públicos estes textos. Poderia perfeitamente esconder meus escritos debaixo da cama, como fazem muitos – há quem diga que eu deveria seguir o exemplo –, mas cá estou, dando às fuças ao tabefe. Quase literalmente: a internet encurtou o caminho entre os que se julgam escritores e o público (assunto abordado por mim anteriormente), e, como conseqüência, a pichação passou a ser imediata. Antes, o autor só sabia que a Dona Leila de Jabuticabal achou seu livro uma bosta quando a raivosa senhora lhe enviava uma carta. Hoje, ela manifesta sua contundente opinião com um e-mail enviado instantaneamente ou, mais instantâneo ainda, um comentário postado no site.

De verdade, críticas são bem-vindas. Mas, apesar de você poder ler este texto e escrever um comentário contrário quando e onde quiser, elas têm hora e lugar. A hora é quando você acessar esse site, o lugar é o próprio. Se a gente se encontrar pessoalmente, só me fale da coluna se gostar dela. Se não for fã, por favor, guarde sua opinião para quando acessar a internet. Não é muito legal ouvir na cara o quanto você escreve mal. Meu chefe faz isso, mas pagar meu salário dá a ele esse direito.

Hoje há uma apologia geral à sinceridade.Todos dizem que falam tudo o que pensam como se isso fosse uma grande virtude. Hum... será? Um amigo diz que sinceridade demais é falta de educação. Concordo com ele. Quando se é excessivamente honesto, é quase certo que o interlocutor vai ficar magoado. A tal franqueza costuma disfarçar antipatia e rancor, como nos mostra o longa de animação “Um Garoto Chamado Charlie Brown”. Nele, o dono do Snoopy procura Lucy e suas sessões psiquiátricas para dar um jeito na auto-estima. A garotinha o leva até sua casa, onde projeta uma sessão de slides com imagens do Minduim, ilustrando seus “defeitos”, como tendência para engordar – “olha sua barriga!”, “e seu nariz gorducho?”, “até seus dedos são gordos!”. Desesperado, o menino grita que não sabia ter tantas falhas e sai correndo. Lucy só pensa nos cinco centavos que o coleguinha não pagou. Não à toa, a opinião do Charlie sobre terapia deve ser um pouco diferente da minha.

Por favor, não se intimide: desça o pau à vontade, neste e nos outros textos, antigos e futuros. Pode inclusive criticar este final. Reconheço que não ficou grande coisa.

Aquela coisa toda por Leandro Leal | Tava demorando...