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Um dia ela já vaiSábado, 12 de Abril de 2008* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor - Olha pra mim. Eu quero que você olhe pra mim e cale a boca. – exigiu a mulher, trancando a porta do quarto.Não se tratava de mais uma briga entre eles. Também não era o início de um longo debate sobre o tipo de relação que levavam, uma vez que ela não permitiu que ele falasse nada. Atônito, o homem não sabia ao certo onde mirar. Em questão de segundos, tentou desviar a visão para a janela, numa frustrada tentativa de fugir da situação. - Não desvia o olho não. Olha aqui pra mim. Eu quero que você me olhe. – prosseguiu ela. Por mais que tentasse encontrar na memória um comportamento adequado para contornar aquele episódio, ele não conseguia achar nenhum. Nunca tinha passado por nada parecido. Não teve jeito, foi constrangido a olhar fixamente para ela. - Isso, olha. Olha mesmo. Eu quero que você me veja. – com os olhos verdes já um pouco avermelhados, a mulher exibia a nudez do seu corpo. Os cabelos negros ornavam com suas partes íntimas. Ela balançava lentamente o quadril, enquanto virava de costas. Atordoado, o rapaz tentou entrar naquele jogo, apesar de não conhecer suas regras. Sem sorrir, esboçou uma feição compreensiva e, bem de leve, experimentou, em vão, acariciar suas pernas. - Não toca em mim. Tira a mão. - gritou a mulher. Perplexo e sem poder fazer nada além de olhar, ele tentou sair do quarto. Ela não deixou. Debruçou na porta, numa atitude arrebatada, e falou que ele não podia sair. Não ainda. - Quem vai sair sou eu. Mas, primeiro, olha pra mim. Eu quero que você me olhe pela última vez. Você está me vendo? Você está vendo o que está perdendo? Você nunca mais vai me ver assim. - Por que você está fazendo isso? – tentou perguntar o sujeito. - Cala a boca. – disse ela, já sem conseguir segurar as lágrimas. Por mais alguns instantes, ele apenas contemplou a beleza da mulher perdendo espaço para o desalento da cena. Ela então se vestiu, pegou sua bolsa e deixou a casa. Tempos depois, apareceu na cidade com outro namorado. Ou melhor, outro não; porque ele nunca a havia reconhecido dessa forma. |