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Túnel do tempo morfinescoQuinta, 13 de Dezembro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Final de ano é época de retrospectiva disso, retrospectiva daquilo e aquela coisa toda. Por isso, resolvi resgatar o primeiro texto que escrevi para o Morfina, em novembro de 2005, uma homenagem ao meu avô, que adorava usar a expressão ‘seu puto’, e ao melhor apresentador da TV brasileira.Hummé Cocoricoooó. A bela canção desperta Seu Abelardo. Antes de se levantar, o velho tira um resto de cinza da orelha. Costume que aprendeu com o irmão de seu amigo de infância, o Barão de Itararé, que antes de se deitar colocava o cigarro dentro da orelha para evitar que queimasse seus lábios enquanto tirava um cochilo vespertino. Este hábito um tanto exótico de seu Abelardo lhe proporcionou uma audição extraordinária. Cronometrados treze minutos, o trem avisa que se aproxima da Estação Virucutu. O velho calça suas botas, pega o fumo, a palha, o pente de cabelo, um cetro e toma um gole de licor de jenipapo, guardado ao lado do seu colchão. A mulher levanta a sobrancelha esquerda, dá uma espiadela no marido e murmura: - Belardo, vê se dessa vez pega um pintado (peixe de couro, muitas vezes confundido com o seu primo a cachara) dos grande. - Hummé Teresinha ? - responde ele. O velho toma o trem e vê seu compadre, no final do vagão, entornando uma garrafa de dois litros de leite com mel garganta adentro e balbucia: - Vai tomá tudo isso de leite, seu puto? Com cara de poucos amigos, o compadre ignora o velho. Seu Aberlardo dá, então, um tapa no seu penteado com o instrumento dentado guardado na bota. Ele olha para o cetro (que se transforma em uma vara de pescar) e lembra novamente do irmão do Barão, que também costumava dormir com uma coroa na cabeça para sonhar que era o rei do Cambio Negro. De fato, o irmão do Barão nunca conseguiu realizar seu sonho, pois sempre apareciam uns espertinhos que lhe roubavam o cetro. O trem pára. Depois de uma boa caminhada, o velho enrola seu cigarrinho de palha, acende e o descansa dentro da orelha. Prepara sua varinha para a pescaria, à beira do rio Torto, e tira um cochilo embaixo de uma samambaia. Ainda cheirando à cachaça de pior qualidade, Abelardo, que na realidade é um alfaiate aposentado, tem apenas 15% da audição e nunca pescou na vida, entra trançando as pernas na pensão suja, onde mora com sua mulher e seus treze filhos. - Abelardo, não me venha de novo com esta história de barão, trem e pintado, seu puto. Toda vez que conta estas ladainhas, já sei que aprontou uma das grossas. O velho, conhecido como Barbosinha pela vizinhança, que adora viver no seu mundinho de mentira, resolve largar a mulher e os treze filhos, adota uma buzina como amuleto, vira apresentador de TV e usa o bordão “Alô Teresinhaaaa!” Acho que o resto da história, você pode imaginar.
pausa para o café preparado por
Camila Pratti | 3 pessoas já provaram meu café
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