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Trezentos e sessenta e cinco motivos num ano

Sábado, 17 de Maio de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Trezentos e sessenta e cinco motivos num ano

“Não existe hora certa para casar” foi o único conselho que o seu pai lhe deu.

O resto não passava de avisos e alertas que beiravam a incompreensão. Não que fosse má pessoa. Tinha um coração bom, ou quase.
Logo depois que o pai morreu amasiou com Roberta, viveram uns meses até casar. Ele com 19, ela 17. Só foram acreditar que ela não estava grávida quando nove meses depois das núpcias ninguém nasceu. Viveram bem dali em diante, nada lhes faltou, ou quase.

Eles entraram numa faculdade, a procura de melhores salários, mas não sabiam que a faculdade muda tudo. Até os amores.

Ela conheceu um tal de Rogério. Ele conheceu a Tia Alzira e suas meninas.

Ela conseguiu um bom emprego, um bom salário. Ele também.

Ela gastava em roupas, sapatos e presentes pra Rogério. Ele pagava as contas que lhe eram dever e o resto guardava para Jéssica, Pamela, Ana Beatriz e outras meninas do Rouge.

Com o passar dos anos ela foi ficando mais bonita, mais lisa, mais rígida e mais delgada. Nele cresceu pelos e ancas, brotou estrias, barriga e uma insegurança.

Ela, antes de abandoná-lo, deixou as carnes vermelhas e gorduras. Ele perdeu os cabelos e a auto-estima.

Ela concluiu o MBA e foi morar com Silvia. Ele teve um filho com Pamela e foi despejado.

Ela acordava as cinco e trabalhava até as nove. Ele acordava olhando para o retrato dela, maldizendo o conselho de seu pai.

Quando, na verdade, seu pai apenas fora apenas mal interpretado. Se é que você me entende.


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