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Todo mundo vai ao circo, menos eu.

Sexta, 9 de Maio de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Senti o estádio do Morumbi balançar e ouvi aquele grito inconfundível de gol nas arquibancadas. Porém, estranhamente, a bola ainda estava fora da grande área, grudada nos pés do atacante Éder Luis. Uma sensação espantosa tomou conta de mim. Era como se umas 40 mil pessoas tivessem o mesmo poder do ator Nicolas Cage, no filme O Vidente, de enxergar as coisas pouco antes delas acontecerem.

Como adepto de São Tomé, preferi me manter calado. Somente após aquele átimo, quando a bola saiu dos pés de Éder Luis e encontrou o artilheiro Adriano de frente para o goleiro, é que pulei e também soltei o grito de gol. O Morumbi ainda balançava.

Olhei em volta e tentei me misturar à multidão. Pelo menos em pensamento, eu ainda estava junto à massa e compartilhava daquela alegria. Aquele gol já era o suficiente para assegurar o avanço do São Paulo às quartas de final da Libertadores da América.

Sentei na minha cadeira, olhei em volta, e senti uma mistura de satisfação com melancolia. Satisfação pelo placar do jogo e melancolia pela ausência de torcedores exaltados no ambiente em que eu estava. Tão perto e tão longe... Era como se fosse um espaço virtual, em que você simula o cenário de tal forma que quase acredita estar nele. Entretanto, quando se dá conta da realidade, o sonho acaba e você é abatido por uma tristeza inconsolável.

Olhei novamente para os lados e puxei assunto com uma meia dúzia de gato pingado, que estava ali. Primeiro, elogiamos o time e depois lamentamos ter comprado ingressos daquele malfadado cambista. Aqueles sujeitos estavam na mesma situação que a minha: tinham ido até a catraca da arquibancada junto com a multidão, gritando e torcendo, e se depararam com a recusa eletrônica do bilhete.

No segundo tempo, quando o jogador Dagoberto dominou a bola na entrada da área, a arquibancada mais uma vez tremeu em cima da minha cabeça e o grito de gol veio em uníssono. Dessa vez, não fui incrédulo. Ignorei Tomé e gritei o nome de um outro santo que sempre me trouxe mais felicidade. Olhei para a televisão, apenas para ver em que canto a bola entraria. A classificação estava garantida.

O barulho continuava alto no estádio. Não cessava. E não era somente os gritos da torcida e o tremular do teto que me deixavam melancólico. Me incomodava o fato de ali, poucos metros acima de mim, estarem milhares de pessoas à frente do meu tempo. Pessoas que tinham o poder de ver antes de mim e, com isso, podiam evitar problemas e sofrimentos que me afligiam. Pessoas que se anteciparam a mim para adquirir seus ingressos e foram premiadas com bilhetes verdadeiros.

Mais uma vez olhei para o lado. Aqueles poucos torcedores pareciam sentir o mesmo que eu. Comentamos o novo gol e a classificação. Depois, inevitavelmente, voltamos a falar do cambista. Sim, da mesma forma que eu, eles também tiveram vontade de ir atrás daquele vendedor. Também pensaram em chamar a polícia. Também cogitaram agredir o cambista e fazer justiça com as próprias mãos.

Só que, assim como eu, todos eles eram brasileiros. Povo de bem. E, acima de tudo, povo que já aprendeu a se resignar com injustiças para não aumentar o tamanho dos problemas.

Passada a raiva momentânea, após a invalidade do ingresso, os ideais de justiça e as idéias de vingança deram lugar à vontade de assistir ao jogo. Por isso, estávamos ali; acompanhando a partida numa pizzaria, localizada embaixo das arquibancadas do Morumbi. No final, tudo acabou em pizza.


vem que é bão com a Rogéria | [1] veio