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The moment is over

Sábado, 15 de Março de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Procurava daqui, revirava dali e nada de encontrar. Pela décima vez, o sujeito punha a mão nos bolsos, revia alguns objetos e lamentava a má sorte. Desconfortável com a situação, a mulher reclamava. E pior, reclamava falando aceleradamente em inglês ou, talvez, em alemão. Naquela altura do campeonato não fazia mais diferença. O rapaz - cidadão brasileiro - já não entendia nada o que ela dizia.

Atordoado, tentava pedir calma à donzela: “A moment please, just a moment”, implorava com seu inglês de quinta categoria, enquanto virava as meias no avesso, com falso otimismo, fingindo ainda ter confiança na busca. Enquanto isso, indiferente à determinação do bom homem, a mulher tomava a digna iniciativa de levantar e começar a vestir suas roupas.

Common, i need to go”, dizia a garota. Incrédulo, o brasileiro relutava em aceitar a derrota. Argumentava que no caminho tinha visto uma farmácia, onde poderiam voltar para comprar um preservativo. “No, never. The moment is over”, alegava a guria, já com praticamente todas as peças de roupa de volta ao corpo.

Valendo-se de um bem humorado, porém, ineficaz conselho, o rapaz tentava insistir. “No, common. I´m brazilian and i never give up”, argumentava, esboçando um sorriso sem jeito. A mulher parecia não entender a colocação, ou fingia isso, e não demonstrava, nem mesmo, ter achado graça. “The moment is over”, reiterava de forma seca.

Infelizmente, ela tinha razão. Observando sua própria anatomia, o sujeito podia confirmar que o grande momento havia minguado. Deitado nu, na grama de um parque qualquer em Frankfurt, ele tentava lembrar onde havia guardado aquela maldita camisinha. Mas era tarde demais.

Levantou também e começou a se vestir. A mulher apenas balançava a cabeça, segurando para não falar algo que, mesmo em bom alemão, provavelmente ele entenderia ou, no mínimo, imaginaria. Ele tentou beijá-la, ela desviou. Ele pediu desculpas, ela ignorou. Ele insistiu na possibilidade de ir à farmácia, ela rosnou e latiu convicta “the moment is over”.

O parque era distante de onde eles haviam se conhecido. O encontro casual ocorrera próximo ao albergue onde ele estava hospedado. A sugestão de ir ao parque fora dela, porém, para tanto, ela questionara se ele tinha preservativo. “Yes baby, sure”, foi a sua resposta, na ocasião. Tsc, tsc, tsc.

O caminho de volta ele fez sozinho. A loira - alta, sedutora e voluptuosa - já não era mais a mesma que ele conhecera há menos de duas horas. Agora, ela fazia justiça à tão comentada frieza alemã. Em poucas palavras, explicou o caminho que ele teria de fazer para voltar ao local onde se conheceram.

Alegou que não iria voltar caminhando com ele, porque ali perto havia uma estação de metrô que era melhor para ela. Ele compreendeu e lastimou. Numa última tentativa de salvar a situação, pediu o telefone dela para, quem sabe, obter um novo encontro. A moça, no entanto, foi enfática: “Não meu amigo, não. E, numa próxima vez, quando você sair com uma mulher e disser para ela que tem preservativo, tenha preservativo”.

A bronca, provavelmente, fora desferida em inglês. Ou, talvez, em alemão. Quem sabe até em francês, espanhol ou russo. Entretanto, esse conselho, sim, ele percebeu que era importante e eficaz. Assimilou aquelas palavras, ditas em sei lá que língua, e nunca mais esqueceu. 
                

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