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Terror meteorológico

Sábado, 14 de Abril de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

“São Pedro que se dane, vou me mandar pro Guarujá”. Convicto da escolha, Beltrão começou a arrumar as malas. Há um mês sem um dia de folga, aquele feriado tinha de ser aproveitado. Planejou a viagem: comprou frango, desossou, temperou, pré-assou... E daí, na hora da partida, veio o safado do Evaristo Corvo, na televisão, prever temporal para os cinco dias de descanso.

Mas ele não se intimidou. Não tinha medo de chuva e não seria um repórter meteorológico que jogaria água fria na sua viagem. Mas também já tinha bolado um plano, caso realmente a temperatura caísse muito por lá. Ferveu os ossos do frango, preparou uma canja e jogou o alimento na garrafa térmica. Depois, pegou blusas e calças e amontoou na mala. Por via das dúvidas, também colocou o sungão amarelo nas bagagens.

E assim partiu confiante. O trânsito não estava dos melhores na saída de São Paulo. Para descontrair, Beltrão ligou o rádio para escutar um som.

- Esse foi mais um sucesso de Rick e Rener – Disse o locutor. Agora, vamos à previsão do tempo em todo o Estado de São Paulo com o repórter Evaristo Corvo.

Puta que pariu. Esse babaca também trabalhava no rádio. Beltrão pensou em trocar de estação, mas declinou. Quem sabe os radares meteorológicos não tinham diagnosticado uma melhoria na temperatura na última medição.

- Boa noite a todos os ouvintes. Pra você que espera aproveitar o feriadão prolongado na praia com sol, trago péssimas notícias – Começou a noticiar Evaristo. Uma frente fria vinda do sul muda radicalmente a temperatura a partir de amanhã. Na região sudeste do Brasil, que inclui o Estado de São Paulo, estão previstos fortes temporais nos próximos cinco dias. – Aterrorizou o repórter.

- Evaristo, não há chance de pelo menos um dia de sol? – Questionou o locutor.

- Não. Uma grande massa de ar frio encontra o clima abafado do sudeste e forma imensas nuvens de chuva. Por ser uma massa volumosa, até o fim do feriado não haverá melhoria. Mas uma boa solução para curtir o feriado é ficar em casa e descansar. – Finalizou com um sorriso irônico na voz.

Beltrão trocou de estação, indignado. Ouviu duas músicas na nova sintonia e, em seguida, o outro locutor também anunciou que daria a previsão do tempo. Desligou o rádio para não ouvir. Nos carros ao lado, percebia a feição irritada das pessoas. Pudera: muitos deviam estar saindo do trabalho, o trânsito estava carregado e, a essa altura, a maioria já devia ter escutado as condições do clima.

Chegou no Guarujá quatro horas depois. Uma garoa persistente caía na cidade. Beltrão foi para o quarto e dormiu. No dia seguinte, trajando um colete de veludo, saiu com sua garrafa térmica. Não agüentou nem dez minutos. A temperatura começou a aumentar violentamente e o cidadão teve de voltar para o quarto e mudar os trajes.

Não tinha levado nenhuma roupa para calor, exceto o sungão amarelo. E foi só com ele que teve de se virar nos dias em que foi para praia. Mesmo assim a viagem poderia ter sido boa, se não fosse o incidente de ter encontrado Evaristo Corvo tomando sol em Pitangueiras, no penúltimo dia do feriado.

Beltrão não se segurou e foi tirar satisfação. Abordou o jornalista, com respeito, mas bastante indignado.

- Boa tarde amigo. Curtindo um sol no dia de folga? – Interrogou Beltrão.

- Pois é, tem que aproveitar esse calor. – Brincou Corvo.

- E eu quase que não aproveito. Ia deixar de viajar por sua causa. Não ia chover todos os dias?

- Não aqui no Guarujá. Se fosse, eu nem viria para cá...

- Mas você disse que teríamos até temporal.

- Mas não disse onde. Falei na região sudeste, que além de São Paulo inclui Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo... Uma hora dessas, em algum desses lugares, deve estar caindo uma bela tempestade – Ironizou.

- Pois eu acho que você deveria ter mais respeito com os seus ouvintes.

- Pois eu acho que você deveria ir embora daqui e não me encher o saco.

Beltrão perdeu a cabeça e partiu para cima do repórter. Evaristo Corvo ficou alguns dias longe das telas para se recuperar das escoriações e do olho inchado. Já Beltrão, na manhã do seu último dia de folga, viu o sol nascer quadrado na delegacia do Guarujá.    



vem que é bão com a Rogéria | [1] veio