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Tefé

Segunda, 20 de Agosto de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

(excepcionalmente hoje, a coluna “São Paulo” será feita por Sérgio Vinícius, na página ao lado. Em compensação, aqui, hoje, a coluna “Na Cama com Madonna”, por mim mesmo, Fabio Inverídico.)

Uma coisa que Tefé tinha aprendido há tempos é que a vida é constante sofrimento.

Em suas meditações mais profundas, chegava até mesmo a duvidar, por exemplo, da existência do amor.
E isso, não por ter vivenciado pouco o sentimento, mas, muito pelo contrário, por ter amado demais.

No passado, descobriu que amar demais é algo condenável socialmente e moralmente. Ninguém tem o direito de amar demais.

Coração-diabo, pensava ele, até que cansado de ter de prestar contas por seus atos a todos, preferiu simplesmente abdicar do amor.

Outra coisa que contribuiu para que isso fosse assim, foi a morte do irmão mais novo de Tefé, um rapaz de gostos simples, mas que certo dia se viu obcecado por uma diva-pop e sofreu muito por isso, sempre sendo mal-interpretado por suas escolhas.

– Lá vai o tam-tam – costumavam dizer, apontando um dedo acusador para o irmão de Tefé.

Tefé ouvia aquilo e sempre soltava um longo suspiro. Era um mundo muito desalmado.

Mas quis o destino que, um mês após o irmão morrer, Tefé, que também não era muito crédulo na sorte, ganhasse um grande sorteio internacional, do qual nem se lembrava de ter feito a inscrição. Vinculado a uma nova marca de achocolatado, o concurso dava o direito de seu ganhador, no caso, Tefé, de conhecer pessoalmente a supermegastar decadente M.

Ao receber o telefonema que lhe confirmava como vencedor, uma lágrima solitária escorreu do rosto de Tefé, por remeter a tristes lembranças do seu pobre irmão recém-falecido.

Duas semanas depois, Tefé desembarcava no aeroporto de Los Angeles, cercado por um numeroso grupo que consistia na produção do evento-promocional-internacional e usufruiu de um passeio turístico que também estava incluso no programa, mas que não convém detalhar, pois o texto já está ficando bastante extenso.

Melhor passar logo à parte erótica...

Assim que M. cavalgou Tefé e chegou ao seu terceiro orgasmo seguido, o que a diva-pop fez foi cantar seu grande sucesso do passado, "Like a Virgin". Não deveria ter feito isso, uma vez que esta era a deixa que Tefé aguardava a noite toda para vingar-se daquela que, ao menos para ele, era a principal culpada pelo terrível destino de seu irmão.

Tefé arrastou-se sorrateiramente pela borda da cama e pegou um picador de gelo que havia escondido debaixo do colchão. Enquanto M. ainda revirava os olhos, Tefê desferiu-lhe um golpe quase fatal...

...o golpe só não foi fatal por inteiro, porque não ocorreu, já que a produção de M., que acompanhava tudo por trás de um vidro espelhado, foi mais rápida, invadindo o quarto e disparando contra Tefé, que só não morreu, porque as balas que o atingiriam em cheio, foram interceptadas pelo corpo de seu irmão Joné que, inexplicavelmente, se materializou naquele exato momento, entre os atiradores e Tefé, na forma de um ser meio-anjo, meio morto-vivo.

Só deu tempo de Joné soltar um som gutural, virar para o irmão e dizer. "Pô, Tefé, metendo ferro na minha mina!?", antes de se desmaterializar.

Atualmente, Tefé cumpre pena em Guantánamo por terrorismo e pretende escrever um livro de memórias, quando voltar ao Brasil.



escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | Dois comentários