Blogs do Morfina
Menu Lateral
Perticipe do Morfina Sobre o Site Fala com a gente Acesso o arquivo Participe do Morfina
Home > > Tanto mar

Tanto mar

Segunda, 24 de Setembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Tanto Mar
(com todo o respeito ao Chico Buarque)

Está bonita a festa, pensou o português. Eram luzes coloridas e muitas bandeirolas, o povo alegre corria e se sacudia e o pó batido no chão do caramanchão ganhava o ar. Os muitos doces brilhavam sob a luz fraca das lâmpadas improvisadas, amarradas nas varas de bambu, mas ele nem os tocou. Cofiou o bigode fino e seguiu seu rumo, atrás da mulata que dobrava e espremia seu coração.

A filha do lavrador sorria sua boca enorme com todos aqueles dentes branquinhos lá do outro lado, perto da fogueira. Ela me viu e eu me vi nela, casado, gordo, feliz e cheio de filhos, pensou. Mas ao contrário do que a vontade mandava, ele saiu do caramanchão para o ar mais frio da cerca que corria para as cocheiras. Não demorou para ela vir atrás dele. A vila já estava toda sabendo mesmo...

Não tinham mais muito pra dizer um para o outro.

- ´Cê num vem pra festa?

- Eu estou na festa, Candice. Agora que estás comigo.

Ela sorriu ainda mais e afundou a cabeça no peito delgado do mancebo.

- Vem dança mais eu, vem...

- Ainda não. Tem algo que preciso falar-lhe.

- Pois diz, homem. Diz logo, que você está me deixando aguada.

Visto que era mais velho, o português sorriu para a mulata e aquele jeito todo doce e inocente dela sorrir. Um sorriso quase paternal. Essa criança tinha um jeito tão gostoso de gostar, tão comprometido, com tanto abandono de si e de tudo o mais que restava em volta.

- Não é belo, nem alegre o que eu tenho para falar-lhe.

Ela apenas o olhava. Ele continuou.

- Termina o inverno e a primavera já chega. É tempo de eu me despedir.

E como ela não reagisse, ele completou.

- Preciso voltar para casa.

Os olhos delas marejaram, abobados de criança magoada e o sal dos olhos logo se tornou o sal do mar. Umas lágrimas imensas, tão grandes que o barco que o levava ficaria perdido meses nela, sem calhar de ver terra.

Ela foi chorar com sua mãe. Ele não teve coragem de mostrar o rosto pesado e pesaroso o pessoal da vila. Tornou devagar para seu casebre barroco e deitou-se, fumando com calma, durante um tempo que não soube contar, até que a porta de tábuas brutas rangeu nas fechaduras e o contorno das carnes rijas fez sombra sobre seu torso nu. A mulata vinha de peito aberto, com lágrimas nos olhos e cheirando a alecrim.

Amaram-se tão perfeitamente que ele soube que nunca mais amaria ninguém como Candice.

No dia seguinte, antes do sol raiar ele já estava de pé, vestido com seu terno branco de linho, barba feita, cabelo lambido para o lado, impecável. Candice dormia, os lábios carnudos entreabertos e o cabelo emaranhado.

Abriu a porta com dedos de veludo e rumou para a saída da vila. No caramanchão, os restos da festa borrava a ordem das coisas. As achas enegrecidas mornas, as bandeirolas pelo chão, e de um arranjo abandonado sobre a mesa, ele tomou um cravo vermelho e pregou na lapela. Deixou para trás uma lágrima na terra da estrada e uma semente plantada no terreno fértil da felicidade de uma mulher.


coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Um comentário por misericórida!