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Tá estressado? Foi pescar?Sexta, 25 de Abril de 2008* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Enquanto Dinei pilota e fala no rádio transmissor com colegas de profissão, Ricardo prepara um feijão gordo, que será saboreado pela dupla em algum momento da noite. Às 22 horas, a embarcação Maracaibo lança ao mar, pela primeira vez, suas duas redes laterais. Elas afundam cerca de 40 metros e, ao tocar a areia, se transformam em armadilhas para polvos, lulas, siris, centenas de espécies de peixes e, sobretudo, camarões rosa.A pesca é feita à noite, no modelo arrastão. Quem se lembra da onda de assaltos em praias cariocas, na década de 90, consegue entender facilmente em que consiste esse tipo de pescaria. Ao serem puxadas pelo barco, as redes trazem com elas, à força, tudo o que encontrarem pela frente. Além de peixes e crustáceos, o par de redes retira uma infinidade de espécies exóticas, que por engano passaram a habitar o fundo do mar. Latas de alumínio, garrafas plásticas, maços de cigarro, embalagens de preservativos e outros inventos humanos dividem espaço com os seres nativos, que nem em seus últimos suspiros de vida conseguem se livrar da persistente companhia. Durante três horas e meia, seguidas, Dinei comanda a embarcação a uma velocidade extremamente baixa, cerca de cinco quilômetros por hora, o que lhe força a aprimorar o seu já notável dom da paciência. Não menos paciente, Ricardo passa o tempo observando o feijão cozinhar em fogo lento e aproveita para também fazer uma panela de arroz. A cada três horas e meia de arrastão, as redes são puxadas de volta para o barco. Os peixes são atirados no convés e separados pelos pescadores. Os camarões são reservados em uma cesta especial. Outros peixes, que poderão ser vendidos, ficam em balaios diferentes. Já as espécies que não servem para venda são devolvidas ao mar. Duas toneladas de gelo, dispostas na parte de baixo da embarcação, garantem o armazenamento de tudo por até quinze dias. Na maioria das vezes, a rotina deles é de onze dias e dez noites ininterruptas no mar para dois dias de descanso em terra. A costa mais próxima, normalmente, fica distante uns 20 quilômetros do local onde executam a pescaria. O trabalho físico pesado - puxar redes, separar o pescado, estocar no gelo e limpar o convés a cada rede puxada – não é mais desgastante do que o emocional. De acordo com ambos, após cinco ou seis noites no mar a solidão começa a virar estresse. O jantar é servido na popa do barco, onde eles recebem a companhia da Lua. Quanto maior o satélite terráqueo se mostrar, menor será a sensação da dupla de estar sozinhos em mais uma noite de trabalho. Ricardo, de apenas 22 anos, experimenta sua iguaria e agradece a Deus por estar ali, com dignidade, sem dever nada para ninguém. Ele conta que há alguns dias estava andando em Paraty (RJ) à noite, voltando para casa, quando viu dois policiais parados no caminho. Pela primeira vez, não sentiu medo daquela cena e seguiu em frente sem mudar a rota. Simplesmente passou por eles, sabendo que estava “limpo” e com os documentos no bolso. Antes de se profissionalizar na pesca, Ricardo chegou a colaborar com a distribuição de drogas na cidade. Para ele, o tráfico é uma das poucas atividades que não exige um bom currículo estudantil ou experiência prévia da garotada que nasce na periferia de Paraty. Lembra com tristeza que viu muitos amigos morrerem ou serem presos. Garoto esperto, comunicativo e de sorriso fácil, Ricardo sonha com dias ainda melhores. Quer guardar dinheiro para comprar o seu próprio barco e, com isso, ganhar mais. Atualmente, ele é ajudante do capitão do barco, Dinei, que soma 25 anos de profissão e o mesmo desejo de adquirir a própria embarcação. Ambos são contratados por uma empresa para fazer a pesca. O pagamento é por produção, ou seja, quanto mais pescarem, mais recebem. Em cada etapa de onze dias de pescaria, eles voltam à cidade com 400 quilos de camarões rosa, em média. Essa quantidade rende cerca de R$ 500 para Dinei. Outras espécies de peixe, que aparecem nas redes, também são reservadas pela dupla e vendidas em restaurantes, o que ajuda a engordar o orçamento. Em um mês de trabalho, Dinei recebe cerca de R$ 2 mil. Ricardo ganha menos. Apesar de ser o assistente, suas tarefas são muito semelhantes às de Dinei. Após o recolhimento da primeira leva de peixes, ele assume a direção do barco. A cada três horas e meia é feito o revezamento na pilotagem, sendo que a atividade só é encerrada às 7h30 da manhã, quando a última remeça é trazida pelas redes. Os dois consideram importante que haja troca na direção, para que possam descansar. Duas camas estão instaladas em cima do motor e é corriqueiro que um relaxe, ou durma, enquanto o outro dirige. Apesar de jovem, Ricardo explica que já trabalhou até sozinho no mar. De acordo com ele, nesse tipo de empreitada se ganha mais, porém, as dificuldades são dobradas. Além de puxar as redes, separar o pescado e dirigir o barco, é duro não ter com quem conversar. “Os peixes não sabem falar e Deus às vezes parece não me ouvir”, brinca. Ele conta que numa dessas ocasiões, o cansaço lhe derrubou. Pegou no sono ao volante e ficou mais de três horas vagando com o barco à deriva. Só acordou quando bateu em uma pedra. “Mas não me machuquei e ainda tirei o barco de lá sem nenhum arranhãozinho”, assegura, com um ar típico de pescador. |