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Sons estranhos durante o jantar

Quarta, 5 de Dezembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Você conhece a garota perfeita.

Bela, simpática, inteligente, corpo escultural, independente...

Você se apaixona na hora e, por algum motivo inexplicável, ela sente atração por você e aceita trocarem telefones.

Alguns dias se passam e você resgata a coragem do âmago para ligar convidando-a para um encontro num restaurante qualquer.

Inexplicavelmente ela aceita.

Ela, de vestido decotado, bebe vinho enquanto pede um prato simples, nada de luxo, nada de joguinhos, apenas sinceridade e curtição.

Você tenta impressioná-la com uma elegância forçada, mas ela caçoa disso... Perfeita!

Chegam os pratos.

Você abaixa a cabeça e, ao dar a primeira garfada, levando o talher recheado em direção à boca, ouve um som estranho e estridente, um tanto molhado e, ao mesmo tempo, duro, crocante.

O conteúdo do seu garfo é derrubado no prato seguido do tremor repentino causado pelo susto que acompanha o som.

Seus olhos levantam-se rapidamente procurando a origem do barulho, que não cessa, irritantemente, ecoando em sua cabeça.

E então a mais horrível das verdades é revelada, quando ao voltar a visão à mesa, você percebe que os barulhos vêem daquela carnuda, mas já não tão bela boca, que o acompanha no jantar.

_ Não é possível! Uma mulher maravilhosa e perfeita como esta, dando bola para mim, um pançudo cervejeiro sem nenhum glamour a oferecer e, no entanto, faz este tremendo barulho nojento ao mastigar!

Você pensa: Ninguém é perfeito. E eu até que posso me acostumar a isso.

O jantar prossegue como se aquele som interminável não estivesse sendo ouvido.

Durante a sobremesa, quando cada mastigada da já não tão adorável moça é como um forte choque elétrico em seu crânio, você ainda tenta se convencer que é possível amá-la apesar da adversidade.

Nas semanas seguintes você faz terapia, conversa com seus pais, amigos, tenta achar o problema dentro de você, até que se convence a marcar outro encontro com aquela deusa, pois como deixaria escapar uma mulher daquelas só por causa de um defeitinho besta?

Segundo jantar.

Ela ainda mais sexy, você com um tampão de ouvidos no bolso.

Conversam, bebem, bebem, você bebe um pouco mais...

Fazem os pedidos e, por alguns segundos, você se esquece do defeito dela, já sonhando com os filhos que terão, a casa, o natal com a família...

Chegam os pratos.

De uma vez, como uma paulada na testa, começam os ruídos altos e chocantes, como o inferno a bater em sua porta.

Primeiro você tenta relaxar, mas logo sente esquentar a garganta, seu estômago rejeita os alimentos, suas orelhas ficam vermelhas, você sente sangue em abundância em seu rosto, como uma urticária esfregada a cada dentada que a garota exerce sobre o que parecem ser pedras em gel, mastigados com força e de boca aberta.

_ Chegaaaaaaaaaaaa!

Seria impossível. Seus amigos mais tarde o chamarão de bicha, de frouxo, pediriam o telefone da beldade e caçoariam do ato até depois de sua morte.

Não foi fácil para você aceitar o fato de sair correndo do restaurante daquela forma. Muita culpa.

E ela pode ter ficado magoada, mas não seria possível viver ao lado daqueles sons estranhos toda vez que comessem juntos. Mais difícil ainda seria manter desculpas para nunca comerem juntos.

E mais uma tentativa de achar a mulher ideal escorreu por suas mãos.

Mas desta vez, junto com todos os sentimentos de derrota e coração partido, brilha um alívio, uma sensação boa de “escapei de um futuro terrível” que o consola e dá forças para a busca pela próxima vítima.

E você pensará mais vezes na expressão “ganhar pela boca”. E sairá cantando pela vida:

“Laranja madura
Na beira da estrada
Tá bichada ou tem marimbondo no pé”...
 
    

        

Canalizado em PVC por Ivan Volpe | texto abduzido por 3