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Sobre arroz e homicídios

Sábado, 29 de Setembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

- Eu furo o seu zóóóóóio...
- Não fura nããããão...
- Furo simmmm...

Com um singelo grão de arroz, o então garoto Nonô fazia galanteios a uma bela menina. No Maranhão dos anos 50, Nonô testava seu charme e seu papo para abordar as donzelas que lhe chamavam a atenção. Pode parecer bem esquisito a muita gente, mas apontar um grãozinho de arroz para os olhos de uma garota, naquela época e cidade, era uma corriqueira tática de sedução.

Nonô conta que muitas vezes essa atitude trazia bons frutos. Era uma forma de fazer a menina sorrir e iniciar a aproximação.

Segundo um psiquiatra entrevistado por este colunista, a leitura da donzela devia ser mais ou menos assim: “não é esse arroz que ele quer me apontar, e não é o meu zóio que ele quer furar”. Tudo bem que a entrevista foi feita informalmente num boteco, e o tal psiquiatra estava um pouco embriagado. Entretanto, a análise até que faz algum sentido. E o mais importante era que Nonô conseguia, com essa conversa furada, alcançar o seu objetivo.

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- Eu furo o seu peito.
- Não faz isso, pelo amor de Deus.
- Eu odeio você.
- .

Na cidade de São Paulo dos dias atuais, o menor L.S.C dispara dois tiros e mata sua, até então, namorada. Argumentando que houve infidelidade da moça, L.S.C é encaminhado para uma unidade de reabilitação de menores infratores e escapa da cadeia por ainda não ter 18 anos.

O mesmo psiquiatra, no mesmo dia da entrevista já citada, dessa vez não encontra bom humor para comentar o fato. Alega que o adolescente deve sofrer de algum distúrbio psíquico. De acordo com ele, o ciúme e a traição podem provocar atitudes inesperadas no ser humano, ainda mais em um jovem que pode ter sérios problemas mentais.

Simpatizante da linha conhecida atualmente como “dos direitos humanos”, esse médico defende que aos 16 anos a personalidade e a identidade não estão plenamente formadas. Para ele, o maior erro está no fato de uma arma de fogo cair clandestinamente nas mãos de alguém dessa idade.

Será que esse jovem criminoso paulistano ao portar um grão de arroz ia ferir o globo ocular de alguma garota que não lhe quisesse? Ou será que por se tratar de uma outra cidade, um outro contexto e em época bem diferente, fica impossível fazer essa comparação?

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Seu Nonô, hoje com 67 anos, lembra com saudade dos tempos de moleque. A história do arroz é apenas uma das diversas que ele gosta de contar sobre o Maranhão e os tempos de brincadeiras e felicidade. Já L.S.C dificilmente terá lembranças boas e descontraídas dessa mesma etapa da vida.

Ainda segundo o psiquiatra que eu ouvi, “o homem é o homem e as suas circunstâncias”. Ele diz não estar fazendo o jogo do advogado do diabo, porém, reforça que o indivíduo não pode ser analisado exclusivamente pelos seus atos. Afirma que para traçar um quadro real dos acontecimentos é fundamental conhecer profundamente a pessoa, entender o meio em que esse ser humano vive, bem como observar todos os que o cercam.

Até concordei em muitas partes com suas explicações. Mas, por via das dúvidas, lá pelas tantas, quando em apenas um gole ele virou a dose de uísque e, em seguida, pediu ao garçom uma porção de bolinho de arroz, achei prudente colocar os meus óculos. Afinal de contas, eu não o conhecia tão bem assim.     

vem que é bão com a Rogéria | 2 vieram