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Só um café

Segunda, 22 de Outubro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Eu acho que o fracasso é contornável. E eu não sou um cara otimista em geral. Não sei o que me fez pessimista. Deve ser pelo rigor da profissão, esperar sempre pelo pior, estar sempre pronto para a debandada geral dos demônios, os portões do inferno abertos e tudo o que poderia existir de errado derramar-se sobre o chão, mastigando a beleza e a fertilidade da terra.

- Alô. Sou eu. Acho que a gente precisa conversar.

Mas eu acho que me acostumei com os fatos que os demônios nunca vieram e eu acabei vendo que existe um terreno seguro onde pisar. É difícil pensar isso às vezes, mas fundamentalmente não dá para viver esperando pelo pior sempre. É frustrante. E te torna uma pessoa intragável. E não dá mais para ser uma pessoa intragável.

- Hum... – a resposta demora para vir. Há hesitação do outro lado. – Você acha mesmo que ainda existe algo sobre o que conversar?

Então eu me fiz acreditar que o fracasso é contornável. Forcei-me a tanto. Briguei por isso comigo mesmo e decidi usar isso como mantra, repetido na minha cabeça indefinidamente. Tornei-me um publicitário advogando para o meu subconsciente. Tentando convencer a mim mesmo sempre. Sem razão nem paixão, apenas com publicidade. É contornável.

- Sim, quer dizer, não sei, é sobre isso que eu queria falar.

Novamente, a resposta demora para vir.

- Acha que vale a pena? Quer dizer, depois de tudo?

Não é bonito. Mas também não é mentir para mim mesmo. Mas nenhum publicitário acredita que o que diz é mentira. Existe uma convicção. Pode não ser mentira, mas ao mesmo tempo não é correto. Nem é muito humano. É lavagem cerebral. Mas este pode ser o exemplo que os fins justificam os meios. Não é crescimento pessoal. Não é razão, não é sabedoria. É só repetir indefinidamente que os demônios não estão me esperando atrás da porta ou embaixo da cama.

- É, acho que sim. Acho que vale a pena sim.

- Olha eu não quero entrar naqueles assuntos, a gente já discutiu tanto, eu não quero te convencer de nada, nem escutar nenhum argumento, não quero...

- Então esquece a conversa. Esquece o assunto. Vamos só tomar um café.

Silêncio.

Eu sinceramente não acredito que os demônios se aposentaram. Existe um atrás da porta sim. E existe o fracasso sim. Ah, o grande fracasso. E não tarda. Daqui a pouco a vida gira, dados rolam, pessoas mudam e eu estarei de novo sentado na sarjeta de um bar desconhecido, com uma cerveja numa mão e com o coração na outra, como um cartum do Jotapê.

- Só um café. – Insiste.

- Só um café?

- Só um café. Sem discussão. Sem conversa. Quer dizer, com conversa, mas vamos falar de música, ou de desenho, ou de circo, do que você quiser.

Mas eu não vou me agarrar na imagem desolada de um ser humano em preto e branco segurando uma macha vermelha na tela do computador, por mais bonita que seja. A beleza da dor pode ser o problema por si só. A dor é linda. Mas não posso pensar nisso sempre. Não posso ser isso sempre. Se pensar, por que tentar? Por que me mexer, sair de casa? Como um alcoólatra, vou repetir para mim mesmo que é só dessa vez. Só por hoje. E que se fodam os demônios. O fracasso é contornável. E com algo simples.

- Só um café.

- Só um café.

coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | 1 misericordioso comentário