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Sharot - Dia de Visita I

Sexta, 13 de Julho de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor


Naquele dia, ela não quis levantar. Sequer quis abrir os olhos.

Afinal, pra quê?

Não estava em seus melhores momentos. Sacrifícios haviam lha rendido 30
quilos a mais. Já não se amava.

Não acreditava, mais, que aqueles estupendos e cintilantes olhos verdes-mar
pudessem atraí-la.

Tanto desagrado, tantas alfinetadas dos próprios filhos.

"Meu Deus, que mundo é esse?"

Tinha ciência de que os grandes olhos do Observador a acompanhavam. E o
faziam conforme seu regrado desespero a preparava.

Entre sonhos e névoas, não sabia ao certo o que a esperava. Apenas sentia
aquela angústia da selvagem Cidade de Pedra. E se via de roupa branca.

Teria tomado o rumo certo? Qual seria o certo?

Não se levantou.

Resgatou lembranças de sua desvairada vida noturna, em suas alucinantes
aventuras pela Capital. Época de glamour e shows dançantes na tão famosa
Rose Bom-Bom.

Pensou em toda purpurina de seus graciosos 23 anos, de seus amantes
cheirados, das alegrias superficiais. Os quais, hoje, com juízo formado,
percebeu que haviam se perdido no tempo.

Assim como perdeu energia financeira, não poupada. Para, afinal, quem sabe,
pode aproveitar um futuro desprendido de qualquer razão que não, no mínimo,
excêntrica.

Com 46 anos, sabe do palpável tempo que perde em relatar o passado. E também
de sentir angustia pelo futuro. Ou, ainda, de uma singela porcentagem do
toque do presente no qual se vivencia, em certos casos, um faz-de-conta.

Ela se deixou tomar por um sentimento de impotência frente a atual
conjuntura de sua vida. Vidinha. Na verdade, foi assaltada por um paradoxo,
típico dos malditos adolescentes:

- Tem-se toda a energia, mas não se tem o juízo. Quando se tem o juízo, já
não se tem energia.

"Que fim levaria Policarpo Quaresma?"

Se indagava, frente ao precipício que por diversas vezes caiu, se queria
mesmo ser tragada por ele. Na queda, arrependimento. E a certeza de que não
poderia voltar. Se entregaria à morte.


em prosa e verso por Mariana Menezes | [n] comentários