![]() |
|
![]() |
Sem relevânciaSábado, 17 de Fevereiro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor A guerra era velada. Ambos sabiam que travavam uma verdadeira batalha, mas somente um bom expectador reconheceria isso. Ele, pintor. O outro, dono da casa. A boa expectadora: a mulher do pintor. Presente em todos os acontecimentos da vida do marido, Indiara sabia que quando ele começava a falar “não esquenta a cabeça não”, era porque a coisa tava feia. E depois de uma seqüência de quatro “não esquenta a cabeça não” ela decidiu intervir.Primeiro, porque tinha ciência de que quando Pirata, o pintor, dizia essa frase era porque não acataria a ordem de jeito nenhum. Segundo, pela convicção de que ele estava muito nervoso ao pronunciar aquilo. Terceiro, porque sabia que, na visão de Pirata, aquilo que lhe fora solicitado era coisa de boiola. Quarto, e mais importante, porque percebia o quanto o detalhe era importante para Norbert, o dono do imóvel. Norbert tinha discutido por dez minutos com o pintor sobre o assunto. No início, Pirata mostrou-se gentilmente irredutível. Apresentou mil argumentos de que aquilo ficaria ridículo, na tentativa de dissuadir o proprietário da residência da idéia. Chegou a dizer que daria até menos trabalho rebocar e pintar a parede do jeito que Norbert queria, mas preferia trabalhar mais e fazer o serviço decente. Norbert insistia... Pirata tentou ser razoável e fez uma proposta diferente. As paredes da fachada da casa ficariam do jeito que o cliente queria, mas na parte de dentro não. Entretanto, o cliente não admitia ingerência no assunto, afinal ele é quem pagaria o pintor. Só que para não partir para o confronto, ou demitir o trabalhador, alegava gostos pessoais, clima romântico e moda no exterior. A discussão seguia relativamente calma, até que Pirata disparou “não esquenta a cabeça não”, sem mais ouvir as opiniões do proprietário. Desempregado há seis meses, o pintor dependia do serviço para levantar dinheiro e Indiara, mais do que ninguém, sabia disso. Por esse motivo, ela decidiu interferir na conversa. “O Norbert está certo, assim fica mais chique”, disse, quase que num sussurro. A frase, no entanto, doeu como um soco no ego do marido. Ele não negava que o emprego era importante e, por isso, até entendia que Indiara tentasse apaziguar a situação. Só que a forma como ela disse aquilo representou, para ele, algo como: “só você, seu ignorante, não conhece a moda do exterior e não percebe o quanto é mais chique fazer paredes texturizadas. Por isso, cala a boca, e atende o que ele está mandando fazer”. Humilhado, Pirata disse à mulher que o chique era relativo. Argumentou, num leve tom de ironia, que muitas coisas podiam ser consideradas chiques por uns e não por outros, olhando discretamente para a saia da esposa. Ela fez um breve meneio e também olhou para a roupa surrada do pintor. Norbert, que também era bom expectador, notou que a guerra mudara de lado. Astuto, aproveitou a oportunidade e mudou o rumo da prosa. De maneira oportuna, disse que em briga de marido e mulher ninguém metia o pincér. Pirata rebateu dizendo que ninguém ali estava brigando. Norbert concordou. Indiara também só que, em seguida, fingindo carinho, ajeitou a gola da camisa do marido que estava desengonçada. Indignado, Pirata falou duas vezes para a mulher: “não esquenta a cabeça não”. Amante dos trocadilhos baratos, Norbert finalizou o debate dizendo que o relevo da parede não era tão relevante e alegou que ainda não estava certo do que faria na casa. Garantiu que, assim que decidisse, chamaria Pirata novamente. Apesar de desempregado, o pintor manteve a sua opinião nas longas discussões posteriores que teve com Indiara. Enquanto isso, dias depois do ocorrido, Norbert já recebia os amigos para os chás da tarde na cozinha lilás de paredes com textura. |