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Sem Limites

Terça, 14 de Agosto de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Fui visitar minha mãe no campo, como faço de quando em quando para ser mimado. Cidade serrana, calor de dia, frio à noite, nada como um banho quente para relaxar. Após uns 20 minutos no banho, pergunto à mamãe: Mãe, qual o tempo limite no banho?, preocupado talvez com as convenções de meio ambiente – uso racional da água, economia de luz, toda essa burocracia moderna de desenvolvimento sustentável com a qual estamos acostumando a conviver. A resposta não poderia ser melhor para quem, como disse, procurava mimo de mãe: “Ora, não tem limite, filho”.

Um pouco de contexto: venho de uma família de três homens. Quando éramos crianças, ingênuas diante do mundo, experimentando tudo por primeira vez, mamãe tinha aquele papel fundamental de mediadora na nossa relação com o mundo. Ela é que apresentava, nem sempre de forma amistosa, os limites da criança para com as pessoas, animais, coisas, introduzia idéias de liberdade, moral, ética, exercitando aquilo a que se convencionou chamar “Educação”.

Depois de homens, os filhos, já em posse de seu próprio espírito crítico, proclamam independência!, e o papel de mãe vai, aos poucos se alterando. Mamãe, naturalmente, tarda a perceber o novo estado de coisas e segue “orientando” as ações dos filhos – “orientações” que são imediatamente interpretadas pelos filhos como “palpites”.

Os filhos então saem de casa, constroem sua própria família, e as visitas vão se tornando cada vez mais raras. A mãe, já isenta do papel de educadora, passa a seduzir os filhos com comidas gostosas, conforto, presentinhos mil. E os filhos naturalmente adoram e correspondem com a tal da visita de quando em quando.

A casa da mãe agora é um refúgio, onde ninguém tem que parecer forte, ninguém tem que ser líder, responsável, tolerante, sábio. Ninguém tem, no final das contas, que ser adulto.

Tudo isso eu pensei durante os 45 minutos em que fiquei me dissolvendo no banho quente, ali, no campo, na casa da mamãe, onde não há limites: se acabar o pão, a gente compra mais; pode comer sem camisa, vendo TV ou na sala; pode botar o pé em cima da mesa de centro; pode dormir depois do almoço; pode roer unha, falar palavrão e xingar o juiz vendo futebol. E, claro, pode ficar quanto tempo quiser debaixo da ducha quente que em casa de mãe não tem Greenpeace nem Al Gore; já não tem mais regra, não tem mais limite.

Foi quando, enquanto eu sorria vendo minhas mãos completamente enrugadas pela água, acabou a luz – porque um dos outros irmãos ligou o segundo chuveiro do sítio.


O Aloísio que não é do campo é o Aloísio da Cidade | 3 leitores já mijaram neste póst