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Saudade
Saudade
Quarta, 23 de Abril de 2008
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Saudade é boa de sentir, eu diria antigamente. Diz isso quem tem a sorte de sentir saudade com começo, meio e fim. Saudade completa, porque acaba com a chegada da presença. Saudade só existe quando há muita presença. É a presença que, ofuscando a gente o tempo todo, permite o nascimento deste hiato chamado saudade. Taí. Saudade é boa quando é hiato. Quando separa duas vogais, um encontro. Mas ao repetir a palavra, as vogais voltam a ficar juntas. Daí acaba a saudade, e há celebração.
Hoje já não digo isso porque conheci outros tipos de saudade. Há quem tenha aquela que sabe-se eterna enquanto durar. Saudade de quem foi desta para melhor e deixou alguém na pior. Há um outro tipo de saudade que eu senti por muitos anos na minha vida, "de algo que não conheço e não sei o que é". Dá crises de angústia e choro e nenhuma explicação parece coerente com o sentimento.
Hoje em dia acho que muita saudade dói e não traz consolo. Isso me faz sentir pequena e impotente diante de algo que é puro sentimento de excesso de presença versus sua abstinência. Inevitável pensar em encontros. Qualquer tipo que emende este vácuo criado pela saudade. Sente saudade quem muito encontrou, e a isso, dou valor. Quem não teve esta felicidade, não sabe do que estou falando.
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