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Satanicity

Segunda, 22 de Janeiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor



Hoje, corro o risco de parecer óbvio em alguns momentos, mas gostaria de falar de como o Diabo projetou o inferno e de todas as preocupações que o Rei das Profundezas teve, e ainda tem, para que o local seja realmente... infernal.

Como se sabe, a atmosfera do local é fétida, quente e abafada. Por todos os lados por onde se olhe, há chaminés vomitando continuamente densas fumaças sobre o ambiente. Obviamente, o odor dominante é o do enxofre, mas há também um esgoto ininterrupto que mancha e apodrece os rios que cruzam os limites locais. Assim, muito embora os índices de produtividade sejam decrescentes há anos, devido a guerra fiscal, os canos parecem se multiplicar dia após dia.

No entanto, uma coisa que muitos se enganam quando imaginam o inferno é que se trata de um local apertado. Na verdade, são vastos os domínios de Lúcifer, portanto não há nada de espremido, muito pelo contrário...

Mas, como Satã é um sujeito matreiro, faz com que mesmo no amplo espaço do seu reino todos os habitantes sintam-se sufocados por uma claustrofobia massacrante. Além da angústia, outro sentimento que grassa nos corações dos moradores do inferno é o ódio. Todos, sem exceção, se odeiam mutuamente e durante todo o tempo querem se matar. Por vezes, este sentimento extravasa resultando em violentos banhos de sangue que fazem o Cão sorrir, emocionado com sua própria pestilência.

Bem ao gosto da mente demoníaca de seu dono, a arquitetura do local é caótica e horrorosa, composta por construções de linhas mal projetadas e irregulares que se sobrepõem umas as outras. Além de exteriorizarem a demência de seu Mestre, tais aglomerados existem para afligir mais ainda quem vive no inferno. Como se sabe, o local inteiro foi erguido sobre um antigo cemitério indígena e vale lembrar que quem está por lá vive a carregar pedras, sem descanso. Por mais que deseje fugir para outro lugar, quem está lá nunca consegue. Nunca aqui é nunca, não há eufemismos nem licenças poéticas no inferno.

A gastronomia do lugar é reconhecida internacionalmente. Há restaurantes de todas as terras e dos mais variados gostos. Como se percebe logo, trata-se de mais uma artimanha do Demônio, uma vez que por mais sortidos que sejam os cardápios que existem no inferno, quem vive lá come sempre um cachorro-quente sem gosto – conhecido como dogão –, feito, obviamente, com o pão amassado pelo próprio "Chef" do local. Que o diga Fausto, o gari alemão que trabalha 24 horas limpando as imundícies das ruas infernais com uma vassoura velha que se solta do cabo constantemente.

Dizem às más línguas que as melhores festas noturnas de todo o mundo também ocorrem nas fronteiras controladas por Satanás. Como muitos dos mitos que cercam o lugar, isto é apenas mais uma mentira, do Pai de todas elas. Não que as festas não sejam boas. Muitas são, sem dúvida, mas ocorre que o Espírito das Trevas sempre faz questão de vendê-las como muito melhores do que são de fato.

Como genuíno inventor do Marketing (sim, esta é uma velha criação de Belzebu, como muitos já suspeitavam), a Serpente se diverte muito arrebanhando novas vítimas com suas falsas promessas. Em tempo, embora o Marketing seja é um das invenções pelas quais o Chifrudo mais se orgulhe, o Telemarketing é o que faz o Maldito mais feliz. "Vou estar gargalhando até o fim dos tempos", costuma dizer Ele, sempre que se refere a essa sua mais recente criação.

Por fim, dado as maiores ironias, quis ainda o Diabo batizar suas terras com o nome de um santo.

Parabéns, São Paulo, pelos seus 453 anos de existência.

* Dedicado a 15 milhões de almas penadas, que apenas seguem penando e nada mais.

escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | 5 comentários