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RockBandQuarta, 13 de Fevereiro de 2008* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Há muito tempo atrás, numa galáxia não tão distante, um jovem rapaz de doze anos chamado Nauta, achou interessante a hipótese de montar uma banda. Roubou o violão da tia, que ficava jogado pelos cantos da casa da avó e, vez em quando passando pela banca de jornal da esquina, comprava revistinhas que ensinavam acordes e músicas da rádio para violão e guitarra. Naquele tempo a internet era para poucos e sites de cifras ainda não estavam na moda.Aprendeu a tocar e a cantar, não profissionalmente, mas daquele jeito bacana que os astros do rock aprendem, criando um estilo próprio, diferente... Alguns aniversários depois, já cursando o que antes era chamado colegial, conheceu mais pessoas com os mesmos rancores da vida, as mesmas paixões. Entre os namoricos e as provas, decidiu formar sua própria banda de rock. Naturalmente a coisa aconteceu, seu melhor amigo de classe tocava guitarra e juntos compunham músicas de revolta contra professores e o “sistema”. Uma rebeldia tola, mas significativamente útil para a expressão adolescente. O colega de um amigo do irmão do primo do vizinho do garoto Nauta, foi apresentado à dupla e assumiu a bateria. Era um garoto mais velho, vivido. Apresentou as drogas à banda, que iniciou então um período muito criativo e produtivo, compondo mais de “quatro” músicas, que poderiam ser gravadas num futuro breve, em uma fita demo (hoje CD demo, data demo ou uploads para myspace ou lastfm) a ser levada pelo pai de alguém que trabalhava numa loja de carpetes e que vendeu um grande lote ao diretor de uma importante gravadora que os tornaria famosos assim que os conhecesse. Claro... Ao mostrarem as músicas em papel almaço (será que ainda existe papel almaço?) para a professora de redação, esta demitiu-se. Ninguém sabe o motivo. Coincidência? Talvez... Lendas do colégio. Mais dois integrantes juntaram-se à banda pelos intervalos das aulas, um assumindo os vocais e OUTRA assumindo o baixo. Inovação para a época, uma banda de rapazes com uma garota participando e mandando muito bem. Sucesso garantido! Reuniram-se na garagem do baterista para o primeiro ensaio. Era uma tarde chuvosa de domingo. Nauta atrasou-se, sua mãe foi buscar uma blusa, passaram na farmácia para comprar pastilhas de garganta, pegaram seu colega guitarrista na casa da prima e demoraram a achar o endereço do tal baterista. Tudo pronto, amplificadores ligados, instrumentos afinados, microfone no aparelho de som antigo. Alguns esboços de Smoke on the water e uma tímida tentativa de Stairway to heaven podiam ser decifrados com dificuldade. _ E aí, o que vamos tocar primeiro? – Perguntou o batera já ansioso e batendo em todas as peças freneticamente – O que vai ser? _ Ah, vamos tentar um Deep Purple básico mesmo – disse o guitarra. _ Ah não, Deep Purple não rola, pesado, né?! Uns Beatles, talvez? – Resmungou Nauta. _ Ah que Beatles que nada, vamos mandar um Rush, um Van Halen ou um Led! – retrucou o guitarrista. _ Led? Muito difícil pra cantar – chiou a baixista. _ Hey, quem canta aqui sou eu! Pode mandar um Led sim! – Disse o vocal já tendo uma crise de estrelismo, como todo vocalista tem ocasionalmente, iniciando um árduo debate. E no final não mandaram nada, só discutiram sobre o estilo da banda, quais músicas tirar, covers, composições próprias... sonhos. Segundo ensaio. Nauta chegou na hora, acompanhado do guitarra. Logo depois vieram o vocal e a baixista, mas o batera não estava em casa, tinha saído com outros amigos. Decidiram desencanar, o vocal e a baixista saíram para comer um doce, Nauta foi jogar videogame e o guitarra achou melhor dormir, afinal, era domingo. Iriam voltar a ensaiar na próxima semana. Próxima semana. Desta vez encontraram o batera em casa. Começaram tentando improvisar a composição de Nauta com o guitarrista. Batera: _Não, não não, ninguém fica famoso assim, esse som está muito morno! Guitarra: _Faz um arranjo melhor então, põe feeling aí, poxa. Nauta: _É, vamos tentar mais uma vez, mas agora com alma, sentindo a letra! Vocal: _Vou ao banheiro. A baixista: _Vou também. Batera: _Opa, ta comendo a baixista, mano? Vocal: _Olha o respeito, cara, não é da sua conta. Nauta: _Então, voltando ao som, vamos tentar de nov... Batera: _Se liga, cara, cê ta na minha casa. Me respeite você e não fica levando a gostosinha pro banheiro! A baixista: _Obrigada pelo elogio, mas desencana, vamos passar para outra música. Essa ta muito de frutinha. Guitarra: _Hey, faz uma melhor, faz uma de macho. Vocal: _ Com certeza ela faz! A baixista: _Como assim? Batera: _Vou quebrar a cara dessa bicha. Nem consegue cantar um Led! Ta mais para Village People. Hehehehehehe... Nauta: _Beleza, hora do café. Quem quer um guaraná? Eu trouxe na garrafa térmica... Guitarra: _Guaraná o caralho! Vocês querem ser músicos ou só fingir que tocam? Batera: _Fingir que tocam? Eu sou o único aqui que fez curso! Vocal: _Curso de baitola! Toda vaidosa! A baixista riu. O batera voou por sobre a bateria e agarrou o pescoço do vocal, que caiu para trás derrubando o aparelho de som. Nauta cuspiu o guaraná com o susto e ficou paralisado assitindo à cena. A baixista dava chutes no batera e ameaçou jogar um dos pratos pela janela. O guitarra, calmamente guardou suas coisas, enrolou os cabos, saiu pela porta passando o braço pelo pescoço de Nauta, que foi arrastado pelo amigo, enquanto recolhia o violão e a lancheira até a rua. _ Não liga para esses caras, Nautinha, o rock n’roll é difícil de dominar mesmo, é para poucos! – Disse o guitarra enquanto acalmava o companheiro de composições em soluços de derrota – A gente é fuguera e com certeza chegaremos ao topo! Certo, Nauta? _ Claro, claro... ao topo! Um dia. Nauta sabia que, na verdade, aquele era só o começo de sua história, um começo comum para tantos que sonham viver o rock n’roll. Mas ali, diante o seu primeiro fracasso como músico-popstar-famoso-bilionário, reconheceu que lutaria por toda a vida para beber da fonte de seus ídolos e conquistar o mundo com suas palavras. Mesmo que nunca suas músicas tocassem no rádio, ele seguiria sonhando e escrevendo, até que sua obra alcançasse a eternidade. Mas até hoje, o máximo que lhe aconteceu foi um ET cair em sua casa e pedir para ficar ali por um tempo. Seria hora de investir em sua carreira intergaláctica? Bem pensado, Nauta... Bem pensado.
Canalizado em PVC por
Ivan Volpe | Fale bem, mal... Fale alguma coisa
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