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Ressaca MoralSegunda, 19 de Novembro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Era umas duas da tarde quando os dois se encontraram no parque. Ela de vestido florido, ele de calça jeans e camiseta. Ambos de óculos escuros e caras de ontem a noite.- É bonito aqui, ele observou. Não conhecia o local. - É sim, gosto muito daqui. Você não conhecia, não é? - Não, riu, Acho muito bucólico. Uma coisa muito inocente. - É, é bem família sim. Ela lhe ofereceu um cigarro, ele não aceitou. Seu estômago dava voltas ainda.O sol ardia os olhos de ambos e ambas as bocas estavam secas. - Como está sua cabeça? - Parece que vai explodir. Tradição de domingo. Mas este domingo fora diferente. - Eu acho que não me lembro de ter tido um programa bucólico assim desde que meu pai insistia que deveríamos ter finais de semana familiares. Coitado, bem que ele se esforçou. - É eu entendo. Eu acho que vim mais vezes aqui antes de ir dormir, quando o sol nascia do que efetivamente de dia. - Eu não entendo esse pessoal correndo, andando de bicicleta. - Eu entendo. Invejo. - Bom, acho que está na hora de começar a invejar essas coisas não é? - É... Está na hora. Deixaram o silêncio pousar entre eles por um momento, ambos sabendo que aquele extrato de Trainspotting já havia terminado e era hora de entrar no assunto de verdade. A conversa pequena, os assuntos desimportantes já não ocupariam mais o tempo. - Bem... - Bem... Sua namorada... Conseguiu resolver? - Não. Assunto encerrado daquele jeito mesmo. Perdi uma amiga e ganhei uma nova inimiga. - Sem chance de voltar? - Não nenhuma. Acho que eu exagerei. Novamente o silêncio dos dois deu espaço para o preguiçoso espichar dos galhos das árvores e do rolar do vento morno do verão. Os dois observavam quietos o tempo passar triste. - E você? Conseguiu entender-se com o seu pai? Acha que ele vai te deixar em paz agora? - Não. Também não. Sabe, acho que ele tem lá seu fundo de razão. É, é muita noitada, muito exagero. Ele está certo. Se não fosse assim, sei lá, a gente poderia estar em uma posição diferente na vida. Vai que eu poderia estar casada? - Arrependimento e casamento não combinam com você. E olha que eu te conheço desde a infância. - É, mas a gente muda, não é? - Deveria. Pela terceira e última vez, o silêncio deu espaço para a natureza se expressar e a moça consumir lentamente seu cigarro, como ela não tinha mais o que fazer. O rapaz apenas tirou esse momento para olhar para as pernas da melhor amiga e pensar se o que poderia ter sido poderia ter unido os dois. - Vai voltar para a casa dos seus pais? - Vou sim. Sabe, não vai ser tão ruim. Eu acho que eles querem também ter uma filhinha pra paparicar um pouco. - Mesmo que seja a filhinha mais velha. Ela ignorou a maldade e continuou observando as famílias de propaganda de margarina desfilarem. - Vai ser legal sim, eles são legais... – Ela repetia para si mesma, como um mantra. - E você vai largar a Maria Joana de vez também? Olha, não vai ser fácil. - Já larguei. Olha está aqui. – Ela enfiou a mão na bolsa e tirou um tijolinho verde escuro frio. – Quer? Eu estava pensando em jogar no lago ali. - Não obrigado, faça os patos mais felizes. - A gente também vai ser mais feliz. - Acho difícil. Esses anos foram... Bem, insanos, bizarros, absurdos... - Foram, mas eu estou falando de felicidade mesmo, tranqüila, pacífica. - E desde quando você acredita nisso? Ou você está mesmo planejando se tornar uma dona de casa aplicada e bem comportada? Vai cozinhar, fazer compras, ter vinte filhos, levar as crianças no inglês, encontrar casais de amigos no clube aos domingos? - Não sei o que vai acontecer. Mas não me importa. Vai ser diferente e está bom. Ou você prefere voltar para toda aquela zona? - Não, claro que não. Só vou sentir saudade da noite. Vou sentir saudade da gente na noite, toda aquela gangue enorme. Aquelas caras... - Eles vão continuar na noite, se você precisar deles. - Não, não, não preciso. Vou sentir falta de mim na noite. Eu era divertido. Vou sentir falta de você também, maluca, descabelada, se pendurando eu um monte de caras e algumas moças também. - Eu não sei se vou sentir falta de nada disso. Pensa bem, olha pra isso aqui agora. Estamos os dois de ressaca num parque de domingo nos sentindo os maiores alienígenas. Eu estou durézima, sem lugar nenhum pra onde correr, fodida de dívidas e com o organismo todo arrebentado. Você está perdido na vida num emprego que odeia mas que te permitia comer todas as modeletes que quis nos eventos, mas a única que você gostou mesmo você conseguiu se livrar num piscar de olhos. A farra pode ser boa do jeito que for, mas dessa sensação de dia seguinte, eu não vou sentir falta nenhuma. - É, você tem razão. Não dá para se considerar uma pessoa normal e aceitar isso tudo numa boa. Mas honestamente, não estou ansioso por mudar de vida assim tão rápido. - Eu também estou com medo. - Não foi isso que eu quis dizer... - Claro que foi. Homens... Ainda bem que eu tenho você para atravessar esse processo, essa desintoxicação emocional. Chega de drogas, chega de putaria, a única coisa que eu guardo de bom foi você. Ele deveria ter dito, mas não disso. Deveria ter selado o pacto que fizeram com um voto de amizade real, mas não o fez, o medo era maior mesmo. De pé, olhos nos olhos, querendo desejar coragem um ao outro e marcar uma cerveja um dia desses, eles seguraram as mãos e trocaram beijos no rosto, desejando apenas sorte no retorno ao mundo real. - O que foi que a gente fez, hein? Que desespero foi aquele? Como é que o nome desse tsunami? Ela deu de ombros, sorriso cândido de criança, olhar de mulher sábia. Do alto de seus 29 anos, perguntou, ao invés de afirmar. - Adolescência?
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | 1 misericordioso comentário
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