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Representação fálica
Representação fálica
Segunda, 23 de Abril de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Provavelmente, seja impossível listar todas as coisas que passam na cabeça de um homem quando o assunto é o sexo oposto. Milhares de fatores são fundamentais para o sucesso da batalha pela felicidade conjugal. Ou pela batalha de uma trepadinha no final da noite. Com certeza na hora do primeiro ‘oi’ que o cara fala ele já pensou em suas roupas, na roupa dela, na conta do bar, no dinheiro que leva na carteira, se sua mãe aprovaria a moça, se os caras lá no fundo do bar já tentaram chegar nela, se o seu cabelo está no lugar, se o hálito está ok, se você vai gaguejar, se você vai saber falar algo interessante e muitos muitos outros fatores.
Sem hipocrisia, nem meias verdades, existem dois fatores primordiais para a sua segurança na presença do sexo oposto. Um é o seu carro. O outro é o sexo oposto.
Estas devem ser as duas maiores fontes de problemas para o homem. Maiores até do que o tamanho do bilau ou o uso que se faz dele. Argumentam os psicanalistas que às vezes uma coisa acaba sendo metáfora da outra, inclusive. Se um charuto é apenas um charuto ou não, seus problemas todos começam e terminam aí. São preciosos minutos nos quais estão na mesma inequação carro e moça. Do outro lado, equivale como você explica que, uma vez somadas a presença dela e o seu carro, a foda é iminente.
Do balcão do bar para o carro seriam uns 10 metros, talvez 15. Um pulo. Uma pernada rápida. Mas parece ser bastante difícil explicar para ela que, deixando as amigas para trás, ela vai embarcar numa viagem inesquecível. Até o motel. Depois ela te esquece. Mas tudo bem, pelo menos você chegou lá.
A gente começa rodeando o assunto:
- Poderíamos ir para um outro lugar...
- É? Que outro lugar? – Ela poderia ter inventado uma desculpa, dito que está menstruada, que teria que acordar cedo no dia seguinte. Ela também poderia ter sido direta, aceitar um café e deixar muito claro que não daria para você nem que seu pinto arrastasse no chão, mas não, ela tinha que fazer aqueles olhos cândidos de quem acabou de sair da crisma.
- Não sei, você pode decidir – É, nessa hora a camisinha que está empaçocada na sua carteira faz meses também já sacou o que está acontecendo e também está torcendo por você, mas você, gentleman paraguaio sugere... – que tal um café? Tem um lugar aqui perto que faz um cappuccino ótimo.
- Ah, não sei, pode ser. É que eu estou aqui com umas amigas... – Claro, o frescor de primeira comunhão da pilantra continua lá, você é quem está começando a ficar desesperadamente tarado. E ela sabe. Bandida!
- Eu também estou com uns amigos aqui, mas não é com eles que eu quero sair daqui – Mordendo a língua para não pedir para ela levar todas as amigas junto, claro, afinal, você traçaria todas.
- Puxa, não sei, não queria deixá-las sozinhas. Eu já vim com elas – você espia por cima do ombro dela e lá está o séqüito de mocinhas prendadas criadas para serem boas mães de família que veio com ela. Cada uma pendurada num sujeito mais esquisito que o outro.
- Vamos fazer assim: você avisa para as suas amigas que nós vamos até o café mais para frente nesta avenida mesmo. É o único lugar aberto. Se elas quiserem, podem vir também. De lá, a gente decide para onde vai, e você, se quiser pode ir com elas – E neste momento, você não vai dar tempo para ela formular uma escapatória – Garçom, a conta, plis!
Larga lá no balcão a quantia mais próxima o possível da conta para não ter que esperar o troco e agarra a fulana pelo pulso. Dos seus amigos você se despede com um aceno de um dedo só e um ‘já ganhei’ cheio de dentes. Deixa ela passar perto das amigas só para pegar a bolsa, mas não para ficar de ti ti ti.
Aí, até o seu carro só deve ter mais uns 5 metros. Quase lá.
Ela pegou a bolsa e a porta do bar está aberta. “Obrigado e boa noite” para o segurança do bar sem direito a réplica, que afinal isso aqui não é um debate de candidatos a nada. Pisou na calçada, a partida está ganha. Tudo o que separa você do fracasso total e uma noitada com aquele anjo é a esquina até seu carro e, claro, os brilhantes caquinhos de vidro espalhados no chão, a porta toda retorcida para fora e a fiação do painel arrancada de seu lugar grosseiramente.
Neste momento crucial, um sorriso rápido, um pedido de desculpas singelo e um comentário sobre a situação da violência urbana quebrariam o gelo e te garantiriam a continuidade da caça. Se você tiver nervos de aço, você consegue.
Eu, xingando mais que a Dercy Gonçalves e chutando a porta do carro, obviamente não tive.
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