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Relações infantis

Quarta, 30 de Janeiro de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Quando eu tinha 5 ou 6 anos de idade, não gostava de ir à escola de rabo-de-cavalo porque um garoto chamado Jonathan disse que eu parecia um menino, já que não podia ver meu cabelo balançando atrás de minha cabeça (tonto).
Como eu usava brincos, achava que já deveria ser um diferencial entre meninas e meninos (tolinha). Mas ainda assim fiquei absolutamente traumatizada com aquilo.

Ainda mais porque ele me tinha como uma de suas três “namoradas” (daquelas que só ganham o título e nunca mais falam com o fulaninho). Era a Fernanda, porque era bonita, a Raquel, porque era legal e eu, porque era engraçada, segundo ele. Engraçada, eu mereço... Não podia escolher, já que cada uma tinha alguma das características que o espertinho procurava em sua parceira.

Nesta mesma escola estudava Maurício, um menininho branquinho, que sempre tinha que usar umas camisetas Hering de mangas longas por baixo da camiseta cor-de-laranja do uniforme. Sua infeliz mamãe comprava Herings estampadas com bichinhos, algo meio suspeito para a época, quando meninos ficam testando a masculinidade uns dos outros. O coitado era crucificado constantemente, porque criança é má, sim senhor.

E não é que um belo dia pego minha mãe conversando com a mãe do Maurício, perguntando onde ela comprava as tais camisetas??? Quase morro, antecipando minha próxima segunda-feira ao me deparar com Johnattan: eu seria o menino careca com camiseta de bichinhos, alvo de piadas pro resto da minha vida!
Consegui escapar desta, felizmente. As minhas eram brancas.

Naquela pequena escola do Pacaembu, havia também uma atividade mensal durante o verão: banho de esguicho.
Apesar da vontade, eu me negava a participar de tal orgia, muitas vezes porque teria que me despir diante dos meus coleguinhas. E menino ri de menina, por definição (naquela idade, claro).
A Fernanda ia lá, de shortinho, tirava a roupa e entrava na água esguichada pela tia. Me dizia que não tinha vergonha de nada, e que no dia seguinte iria fantasiar-se de cocota para o baile de Carnaval. Não sei de onde tirou isso, o fato é que foi a primeira vez que ouvi esta palavra e me pareceu feia.

Fui oradora da turma, num dia em que ardia de febre, causada por uma das três pneumonias que tive. Me lembro da sala de aula, das “tias”, dos coleguinhas, de algumas atividades, de visitar minha irmã e minhas primas em suas salas. Não me lembro que fim foi dado ao cachorro louco, o qual diziam viver enterrado na areia do tanque onde ficava o trepa-trepa. Não me lembro de ninguém trepando nele, por medo do cachorro.

E até hoje não saio de casa sem brincos, mas uso rabo-de-cavalo cotoquinho, sim senhor.



devaneio de: Sil Curiati | 2! E o cordão dos puxa-saco cada vez aumenta mais!