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Quem não gosta

Sexta, 26 de Janeiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é”. De tão forte, a frase transcendeu suas origens e converteu-se em máxima da sabedoria popular – muitos nem sabem que se trata de um verso musical. Muitos, além de não saber de onde vem, adaptam a frase de acordo com suas preferências: “quem não gosta de Nelson Ned”, “quem não gosta de ovo frito com sorvete”, “quem não faz troca-troca” e outras que, se fossem mesmo verdade, reduziriam o contingente de bons sujeitos a meia dúzia, no máximo. (No caso do troca-troca, o numero seria um pouco maior.)

Na adolescência – época em que, de acordo com o dito original, eu não era um bom sujeito –, criei a minha própria versão: “quem não gosta de Ramones, bom sujeito não é”. Ao contrário das outras, esta era incontestável. Como não gostar do som sujo e (mesmo não saindo dos três acordes) criativo dos camaradas que deram o ponta-pé (com coturno) inicial no punk? Quer dizer, como não gostar e continuar sendo um bom sujeito? Parecia que todos pensavam o mesmo. Passei anos sem conhecer alguém que não gostasse dos cabeludos nova-iorquinos – pelo menos alguém que tivesse coragem de admitir isso publicamente.

Passaram os anos e, finalmente, esse alguém deu as caras. Caras bem barbudas, por sinal. Os Los Hermanos confessaram tal falha de caráter não apenas para mim, mas para toda a audiência da MTV naquele horário. Mas, apesar de condenável, não se pode negar a coragem do ato: não bastasse queimar o filme com multidões, em rede nacional, os caras ainda tiveram a manha de fazê-lo no programa do João Gordo, que, apesar das acusações de vendido, sempre foi punk e, principalmente, grande e bravo. O líder dos Ratos de Porão fez o que eu e outros milhares de espectadores gente boa gostaríamos de fazer: enxotou os pedantes cariocas aos ponta-pés ( de coturno, como os Ramones).

Foi aí que passei a nutrir grande antipatia pelos Hermanos – maior inclusive, do que tenho pelos argentinos de quem emprestaram o apelido. Foi aí também que comecei a questionar a máxima que deu origem à série. Sim, porque, mesmo chegados ao “de raiz” e usando-o em suas composições, eles não podiam ser gente fina, já que não gostavam de Joey e sua turma. E este primeiro sinal de antipatia não seria o último. Em diversas entrevistas seguintes, fizeram questão de deixar evidentes seu pedantismo e arrogância. Isso sem contar o blog de “poesia concretista” e redações pré-primárias de um dos integrantes – Marcelo Campelo, se não me engano.

Talvez esses babacas até gostem de Ramones. Talvez tenham dito isso simplesmente como esforço “iconoclasta” (tipo o bispo da Universal que chutou a Santa, sabe?), babaquice de “artista” que quer chocar. Se esse for o caso, a frase “quem não gosta de Ramones, bom sujeito não é” é que precisa ser questionada.

Aquela coisa toda por Leandro Leal | 14 descendo o pau