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Quem bebe mais?Sábado, 5 de Janeiro de 2008* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor A competição começou por acaso. Não houve arbitragem e até hoje não foram encontradas testemunhas, então é absolutamente impossível garantir quem venceu. De um lado, o técnico de futebol Valdir Espinosa. Do outro, o jornalista esportivo Eduardo Vieira da Costa. Ambos estavam na sala de embarque de um aeroporto europeu, aguardando a chamada para voltar ao Brasil.Como este texto é o primeiro registro escrito da disputa, é de bom tom informar que não foram ouvidos os dois lados da história. Peço desculpas ao treinador Espinosa por estar utilizando como base desta crônica exclusivamente a versão do jornalista. Também coloco este mesmo espaço à disposição do técnico, caso ele queira informar a sua interpretação dos fatos. De acordo com Eduardo, a competição foi acirrada. Estavam os dois esperando o embarque para São Paulo, numa tarde ensolarada de verão alemão. Era julho de 2006 e, há poucos dias, a seleção brasileira de futebol havia se despedido da Copa do Mundo, num jogo ruim e vexatório de quartas-de-final contra a equipe francesa. Incomodado com a espera, o jornalista pediu um chope para relaxar. Espinosa pareceu gostar da idéia e em seguida também solicitou o seu, mas sem espuma. Naquele momento, Eduardo já percebeu uma ligeira olhada insolente do treinador, que foi analisada como “homem que é homem bebe chope sem espuma”. Eduardo virou o seu copo em apenas dois goles. Olhou para Espinosa e fez um breve meneio, fingindo querer cumprimentá-lo, e dirigiu-se ao balcão para pedir mais um chope. Enquanto ainda aguardava a entrega do copo, ouviu a voz do técnico ao seu lado. “Por favor, mais um pra mim. Mas, dessa vez, sem espuma mesmo, hein”. Os copos vieram juntos e Espinosa pegou o dele da bandeja rapidamente, deixando claro que não aceitaria o outro copo com colarinho. Eduardo fingiu não perceber o desaforo, porém, ali mesmo no balcão, saboreou o primeiro gole do seu chope com entusiasmo, numa clara exaltação à espuma. O treinador deu dois passos para o lado, encostou-se a uma coluna e bebeu o chope todo. Ato reflexo, ergueu o dedo e solicitou mais um ao garçom. Eduardo ficou ali mesmo no balcão. Virou o copo e pediu dois chopes. Se o de Espinosa era sem colarinho, ele precisaria beber no mínimo um copo a mais para considerar que venceu a concorrência. Os dois não se conheciam pessoalmente, fato que até hoje perdura. Segundo o jornalista, em nenhum momento a guerra foi declarada. Durante as duas horas que permaneceram por ali, eles se olhavam apenas com o canto dos olhos. E quando algum dos dois ousava dar uma olhada direta, o adversário disfarçava mostrando que não estava encarando aquilo como uma peleja. A sensação era a de dois motoristas parados no farol, esperando o sinal verde para ver quem arranca primeiro. Uma coisa meio velada, mas que ambos sabem que está acontecendo. Foram muitos chopes. Após o décimo oitavo copo, o jornalista explica que não conseguiu mais contar. “Percebi que eu já estava bêbado quando comecei a ver o Marlon Brandon ao meu lado e não mais o Valdir Espinosa”, conta Eduardo Vieira. Quando finalmente o embarque foi anunciado, os dois, pela primeira vez, olharam frontalmente um para o outro e, sem disfarçar, abriram a garganta para matar o último copo. A impressão deixada foi a de que, naquele momento, a competição passou a ser a de quem fazia menos careta para virar o chope. Por sorte, no avião, eles sentaram distantes um do outro. Entretanto, no meio da viagem, Eduardo levantou para ir ao banheiro e não pôde deixar de notar que Espinosa estava acordado numa poltrona no corredor e segurando uma latinha de Weisteiner. O técnico viu o jornalista passando e não conseguiu esconder o sorriso. Eduardo voltou do banheiro e pediu uma cerveja à aeromoça. Não voltou a ver Espinosa naquela viagem, mas somente após beber o último gole da lata é que conseguiu dormir tranqüilo. A derrota para a França ainda não estava esquecida, porém, naquela outra competição, ao menos um duro empate ele certamente havia arrancado. |