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Quando ela saiu

Segunda, 5 de Novembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

    Ela acabou de sair daqui, fechando a porta atrás de si e me deixando sozinho. Ela me deixou sem mais palavras uma vez que muito foi dito em variados volumes de vozes até que, sim, cansou, chega, já não há mais nada. Concorda? Concordo.

Ela acabou de sair da minha vida. Imagino eu que para sempre, apesar de não ser a primeira vez que ela sai da minha vida para sempre. Voltou uma vez. Mas agora é diferente, pois passamos o último mês inteiro olhando aturdidos para uma relação morta. Incapazes de nos largar; éramos também incapazes de continuar.

Hoje ela veio até o meu escritório. É tarde e os outros arquitetos já se foram. Eu prefiro assim. Preferi encerrar nossa relação no escritório, mas ainda não sei porque. Talvez porque eu realmente me sinta mais em casa aqui do que no meu pequeno apartamento vazio. Talvez porque aqui no escritório estejam realmente meus sonhos e a possibilidade de dividir a vida com alguém. Foi aqui que eu construí meu sonho. Foi aqui que eu projetei meu sonho. Um sonho de três quartos, paredes brancas, jardim quintal e uma pequena piscina. Um sonho pequeno, mas que acomodaria todos os sonhos dela, dois meninos e uma menina.

Ela se veio para despedir-se, parece, para chegarmos em termos, colocarmos um fim em tudo e quem sabe possamos ser amigos um dia. Ela veio para um último beijo, um beijo de despedida. Encostou sua testa na minha como sempre fazia e olhou-me cheio nos olhos, com um sorriso pequeno, brotando dos cantinhos da boca, algo tímido e esperançoso de que eu tomasse alguma iniciativa. E eu tomei, claro. Beijei-a com a força do amor que ainda lume e, buscando para que ainda houvesse algo, larguei-a, aguardando a próxima palavra, a reconciliação e o reinício mas quando ela abriu os olhos tudo o que me deu foi “cuide-se”.

Caí numa cadeira e segurei as lágrimas, mas não as palavras. Você sabe que eu não vou me cuidar. Eu não tenho para quê. O escritório já anda sozinho. Eu não quero pensar, fazer ou ser nada melhor agora, quero apenas me esconder, definhar e, se o ânimo permitir, vou me esforçar para me destruir, fazer tudo de errado que for possível e talvez eu sinta algo tão forte que nuble toda a dor.

Ela veio apenas para sair novamente, mas nesse momento, deixou-se ficar. Aturdida.

Cuidar de mim? Não. Se você quer que eu seja bem cuidado, fique você e me cuide. Eu não preciso de mim em bom estado. Do jeito que você deixa é o jeito que vai ficar. Ela protestou, conversou, pegou na minha mão, ajoelhada ao lado da cadeira que eu estava afundado mas eu não pude falar. Nem pude lhe olhar.

- Isso não é justo. – Sua voz tremera. E não perdia nada de sua beleza nem quando parecia prestes a chorar tempestades.

Novamente, eu não respondi. Ela afastou-se andando de costas. Apoiou as costas na porta e me olhou ainda.

- Eu realmente espero que você fique bem. Por favor não faça isso só para eu sentir pena de você. Isso não é justo. Eu não te quero mal, apenas...

Ela saiu daqui com um soluço curto. Ela saiu me deixando sozinho com meus planos, meus sonhos e com seu cheiro espalhado pelos meus braços e rosto. Tudo cheira a ela agora. A essência doce de sua pele me contaminando, crescendo em mim.

Ela saiu daqui e me deixou pensando sobre o que é cuidar-se. Por que dizem isso? Quem foi o inventor cruel dessas palavras? Quem foi que cunhou o clichê de dizer isso para um ser humano que deseja deixar de existir? Como cuidar-se se, de repente, a vida simplesmente não vale a pena.

Horas se passaram e eu consegui levantar da cadeira sem chegar a nenhuma conclusão. Meu corpo em piloto automático abriu o frigobar, tomou um copo, gelo e uma talagada gigante de vodka. É hora de desconstruir os planos. Dissolver em álcool os ângulos, as retas, os círculos e todos os detalhes de acabamento.

Puxo as persianas e olho a cidade. Quem sabe até o fundo da garrafa o sol não nasça e eu possa descansar, curtir a minha maior ressaca? Quem sabe com uma garrafa de vodka eu não sinta mais o cheiro de mãos dadas no shopping, o cheiro de DVD e pipoca no sofá da sala, o cheio de melhor sexo da minha vida, o cheiro de juras de amor, o cheiro do companheirismo, o cheiro de casamento, o cheiro de barulho de crianças pela casa, o cheiro de contas para pagar e cheque especial para equilibrar, o cheiro de envelhecer juntos, o cheiro que ela me deixou impregnado na cara, ansiando por uma vida juntos, mas que não volta nunca mais.

O que vou eu construir agora?

Na privada despejo a vodka intocada e na pia e apago o cheiro das promessas com água e sabão.

Um ato banal como lavar as mãos adquiriu contornos de sacrifício bíblico. Teria sido mais fácil arrancá-las fora, mas eu o fiz.

Deve ser isso que chamam de cuidar-se.


coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas