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Qualquer dia desses

Quarta, 26 de Março de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

 _ Qualquer dia desses, o mundo vai explodir.

Fiquei curioso a respeito da afirmação que ouvi e resolvi provocar o emissor “atiçando” o seu desabafo:

_ Explodir, com fogo e pressão, igual aos filmes de guerra nas estrelas?

_ Bom, não sei se vai ser igual aos filmes, mas tudo o que vemos hoje irá ruir, acabar.

Tudo bem, tudo tem um ciclo e as mudanças são inevitáveis, mas se presenciaremos uma súbita quebra de parâmetros, já não sei se acredito.

_ Acredite, meu filho. Você verá lava, nuvens negras de destruição e seres das trevas levando tudo o que não for digno da bondade de Deus.

Peraí, o papo ficou muito religioso pro meu gosto. Agora ele já estava apocalíptico demais.

_ E no fim, só quem tem Deus no coração estará livre para caminhar nas novas terras que sobreviveram. Mesmo que estas precisem de muito amor para voltarem a florescer em vida.

Pensei em caminhar pelas cinzas, o cheiro de enxofre com a ausência de plantas e animais. O que eu beberia? Ou comeria? O que eu respiraria? Claro que sou um dos escolhidos para sobreviver com Deus no coração, só tenho boas atitudes. Bom, se tenho algumas más atitudes são pequenas demais para me levarem ao inferno. Eu acho. Será?

_ Os homens de bem, então, iniciarão uma nova sociedade, recheada de amor e bondade – ele continuou - só haverá amor, paz e compaixão. 

Bom, tenho bondade em algum lugar por aqui. Não, acho que deixei no bolso de uma outra calça. Mas, com certeza tenho Amor.

_ Amor incondicional, a tudo e a todos. – ele filosofava, quase sem lembra-se que eu estava ali. Falava para o ar, para o céu.

Continuei ouvindo e, sinceramente, não amo tudo nem todos não. Aliás, não suporto alguns colegas que vivem fazendo piadinhas sujas enquanto exerço meus deveres diários. Talvez eu não tenha senso de humor. Mas eles poderiam queimar nas lavas que eu nem ligaria. Ops! Não, não... eles até que devem ser boa gente. Ou não, sei lá. Ah, que queimem no inferno!

_ E não haverá julgamento entre os seres – nossa, esqueci que o guru ainda falava – Não se pode julgar, nunca...

Eu não julgo ninguém. Quem sou eu para julgar? Acordo cedo todo dia para ir trabalhar, beijo minha mulher e meus filhos - eles eu amo de verdade - pego um puta trânsito com aquele monte de barbeiros imbecis que com certeza compraram a carta, fico parado horas no asfalto por causa dos incompetentes do CET, que não criam soluções - e olha que pago todos meus impostos em dia! - tudo para aqueles filhos duma puta do governo encherem ainda mais os bolsos. E não levo nada em troca. Ainda fico ouvindo os vagabundos no farol pedir dinheiro... Também tem a minha chefe - que lhe falta mesmo é uma boa transa, aquela mal amada velha - me cobrando mais e mais rendimento... E mesmo depois de tudo, ainda me esforço tanto para ser bom e honesto e sobreviver nesta merda de país, cheia de ladrões e assassinos, que perco o tempo de viver. Neste mundo já perdido para as trevas, não dá tempo de pensar em mim mesmo.

Ah sim... Com toda certeza tenho direito a sobreviver e viver na sociedade do futuro. Estou tão fodido que com certeza Deus terá dó de mim.

E agora vi que quem estava pensando e falando sozinho era eu. O guru estava distante, pregando seus pensamentos de bondade a um grupo de pessoas do outro lado do auditório. Se Deus for como ele, talvez se esqueça de mim e me deixe falando sozinho.

Fiquei preocupado. Em alguns poucos minutos consegui enxergar que tenho raiva de tudo, ou quase tudo. Me irrito fácil, vivo julgando os outros e estou sempre mal humorado, sem realmente saber o que é a felicidade, onde ela está e como ela é.

É, talvez seja melhor mesmo queimar no fogo dos infernos e bater uma bola com o demo, enquanto deixo esta terra prometida para quem realmente pode amar em um tempo de tanta agonia.



Canalizado em PVC por Ivan Volpe | texto abduzido por 3