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Profissão idoso

Sábado, 4 de Agosto de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Já estava há mais de uma hora na fila, quando a oitava velhinha atravessou a agência sem olhar para os lados e foi até a frente do caixa. Revoltado, pensou em ir embora mas precisava efetuar aquele pagamento. Teve, então, a idéia de chamar o sr. Otacílio.
Ligou pra esposa e pediu que ela desse uma olhada pela janela do quarto. Se ele tivesse sentado no quintal da casa de frente – como ficava todos os dias, em quase todos os horários -, era pra lhe pedir um favor urgente.

Menos de cinco minutos depois, a mulher retornou a ligação dizendo que Otacílio tinha topado. Em pouco tempo, aquele senhor chegou ao banco. Com sandália de couro, calça social e camisa desabotoada, Otacílio não tinha sequer uma moeda dentro dos bolsos, mesmo assim a porta de entrada insistia em não permitir a sua passagem.

“Priiim-priiim-priiiim”, gritava o portão da agência. O segurança ordenou que Otacílio esvaziasse os bolsos, mas não havia nada nas calças. O segurança balançava a cabeça negativamente. “Alguma coisa você tem de metal aí”, dizia. Otacílio não compreendia. Pessoa simples e idosa, provavelmente nunca havia entrado numa dessas “modernas agências bancárias”.

Rodrigues pediu para o cara de trás guardar o seu lugar na fila e foi até a entrada. Sugeriu que Otacílio tirasse o relógio e depositasse na caixinha. Finalmente houve a liberação. O senhor conseguiu entrar na agência, porém, ainda sem entender o propósito pelo qual sua presença havia sido solicitada.

Meio sem jeito, Rodrigues passou um envelope para as mãos de Otacílio. Disse que ali tinha algumas notas de dinheiro e um boleto de pagamento. Ele só precisava ir até o caixa, falar a idade e pedir o atendimento preferencial. Daí era só pagar e ir embora.

Rodrigues pediu desculpas ao vizinho pelo oportunismo. Consciente de que essa não era uma atitude boa, alegou a Otacílio que precisava pagar aquela conta de qualquer jeito para não ser protestado. Também justificou que estava atrasado para uma reunião no trabalho, que não podia ser desmarcada. Ou seja, era uma apelação horrível que fazia, mas agia assim somente por ser o último recurso num momento de desespero.

Otacílio só queria ajudar e não se objetou em atender. Só que quando chegou no caixa, um cidadão que também estava na fila há horas - e tinha acompanhado a manobra de Rodrigues - decidiu denunciar. Aos berros, alegava que Otacílio havia sido pago por Rodrigues para furar a fila e prejudicar os demais.

Esbravejava contra Rodrigues e Otacílio, que virou seu principal alvo. Dizia que um senhor naquela idade não deveria se prestar a fazer uma coisa tão indecente. Outras pessoas que estavam na fila também se indignaram. O furdúncio se generalizou.

Rodrigues procurou isentar o vizinho de culpa. Tentou explicar sua situação e o seu desespero. Entretanto, outros cidadãos diziam estar com tanta ou até mais urgência de serem atendidos. “Todo mundo tem os seus problemas”, diziam...

Nem mesmo a presença do gerente foi suficiente para acabar com a briga. A situação só foi resolvida quando Otacílio devolveu o envelope para Rodrigues e resolveu ir embora. Envergonhado, passou o seu lugar no caixa para uma mulher um pouco barriguda que havia acabado de chegar e dizia estar no primeiro mês de gravidez.    

vem que é bão com a Rogéria | [1] veio