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Priminha do interior

Segunda, 15 de Janeiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

    - Cara, a prima da Ju quer te conhecer melhor. – Dizia o aniversariante, tentando me enxergar através dos olhinhos fechados pela pureza dos destilados.

Olhei a moça do longe e não consegui me visualizar esparramado no sofá com uma gigantesca pança de chopp assistindo ao futebol de domingo enquanto ela esfregava minhas cuecas no tanque, mas definitivamente consegui imaginá-la de quatro num quarto de motel uivando para a lua enquanto eu deixava fluir sua cabeleira negra pelos meus dedos.

- Ela veio do interior de Minas para fazer faculdade. É de uma cidade minúscula. Aliás, a mãe dela é bem próxima do meu tio que é... – Como se eu estivesse prestando atenção àquele blá, blá, blá que brotava de sua cara suada e vermelha. Eu estava com os instintos à flor da pele e me aproximei da mocinha com uma mão no bolso do terno tentando imitar aquilo que só o James Bond de Sean Connery tinha: charme e língua presa. O charme vinha do terno. A língua presa da mangüaceira.

- Você dança?

Estávamos ouvindo uma das poucas coisas que eu sabia efetivamente dançar, mas mesmo que a banda resolvesse por algum motivo estúpido entoar um tango ou um bolero, eu teria levado a priminha interiorana para perder o equilíbrio comigo e apoiar os cotovelos no bolo. Ainda bem, dançamos pouco e conversamos menos ainda.

- Cuida bem da minha priminha, disse-me a Ju, enquanto eu a conduzia pela cintura para o carro. Nem dei bola. Saí procurando um café aberto.

- Bonita noite...

- É... Mesmo nessa parte tão difícil da cidade.

- Não conheço muito bem por aqui.

- Será que não é perigoso?

- Não sei...

...

- Quer ir para outro lugar? – Ela soltou de repente.

Comecei novamente a imaginar essa mocinha gemendo para a lua como uma loba no cio. Sim, sim, sim vamos para outro lugar! Eu conheço outro lugar. Sou especialista em outro lugar. Praticamente moro em outro lugar. Tem um outro lugar ali no fim da rodovia, outro lugar logo ali na saída para...

- Vamos para o meu apartamento... – Ela disse casualmente.

Esse é o melhor outro lugar da história. O outro lugar onde eu economizo uns reais.

- ... você sobe? – Ela perguntou quando chegamos ao edifício.

Sim, subo no seu apartamento, subo em você, subo no seu armário, na sua geladeira, e pulo de lá de cima cantando “George, o Rei da Floresta”.

Cumprimos o percurso do elevador até a porta do apartamento em tempo recorde: 10 metros em quase meia hora. A porta se abriu e despencamos no sofá. Livrei-me da gravata e também do blazer do terno. Ela arremessou a bolsa para um canto e eu fiquei à vontade. Sábado a noite do jeito que sábado a noite deveria ser.

Encontrei a fenda da saia e corri os dedos pelas coxas perfeitas da moça. Meus dedos encontraram os dela logo ali me esperando. Segurei sua mão terna e afetuosamente como seu eu estivesse lá ligando para ternura e afeto e prossegui tentando desvendar o gigante mistério que o vestuário feminino pode ser. Novamente a mão dela interrompia o meu pulso. Quem sabe pela cintura? Mas lá estava a sua mão também. Tentei circundar o decote. Mãos proibitivas novamente. Rainha do Karatê Kid.

Parei tudo.

- Algo errado?

- Não, comigo não. Por que?

- Por que você está segurando minha mão?

- Para que sua mão não vá aos lugares errados.

São 4 da manhã, eu estou bêbado, você está bêbada estamos os dois no seu apartamento, onde é que fica esse tal de lugar errado?

- Lugar errado?

- É, sabe, eu queria que fosse algo mais devagar.

Claro, eu posso morder sua boca em câmera lenta.

- Claro, claro que sim. – Tomei um espaço e recomecei de onde havíamos começado na festa. Beijos discretos. Depois beijos mais intensos. Depois pescoço, nuca, afagos, mãos no rosto, na cintura...

Ergue o braço o árbitro.

- Vamos conversar – o famoso “discutir a relação” - talvez eu tenha te dado a impressão errada...

Você não me deu nada. Ainda.

- Sabe não é porque você está no meu apartamento...

Não, afinal você poderia ter me convidado aqui para jogarmos ping pong.

- E eu não sei, afinal a gente mal se conhece...

Pelo menos no sentido bíblico.

- E não é qualquer um que eu convido para vir para o meu apartamento que é para rolar algo mais...

Especialmente se você se esfregou nele a noite inteira e o sol está quase nascendo.

- É, realmente, eu acho que eu estava com a idéia errada. – Beijos, beijos, foi um prazer conhecê-la, PT, saudações.

- Você já vai?

- É, bem está tarde... – e afinal de contas, você ainda nem me mostrou a sua mesa de ping pong.

Mestre estrategista, ela faz cara de vítima.

- Quer dizer que só se acontecesse algo mais poderíamos estar juntos.

Quando você ouve uma mulher que não consegue falar em “ficar” ou “transar”, fica difícil explicar que sim, já que você me convidou para subir ao seu apartamento no fim da madrugada, eu quero mesmo é te f.....

- Não, não é bem assim... É que... - é, é bem assim. Aliás, é exatamente assim: madrugada, álcool, apartamento, sexo, café da manhã – Vamos combinar assim: eu te ligo outro dia para conversarmos melhor. Afinal, eu estou bêbado, você está bêbada, está tarde...

- Sei, você só quer ir embora.

Quero. Assim que você me disser como eu faço isso com certa dignidade.

- Está tarde. Eu te ligo essa semana. Boa noite.

- Não está esquecendo de nada não?

- Hein?

- Meu telefone.

Sábado. Do jeito que sábado é para ser.


coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas