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Praia e tudo o que vem junto

Segunda, 29 de Janeiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Quando eu finalmente engoli a idéia de ir passar o reveillon na praia eu estava pronto. Eu estava pronto. Eu estava pronto para estacionar o meu carro na rua da casa de um amigo e ir lá com a galera dele. Eu estava pronto sim para entrar num uno mile com mais 4 caras esquisitos. Eu estava pronto para pegar chuva e trânsito intenso na estrada. Eu estava pronto para as fechadas, eu estava sim, juro. Eu estava pronto para os motoristas loucos de final de semana em seus poderosos chevettes e belinas. Eu estava pronto para pagar todos os pedágios, e pronto também para passar a viagem inteira escutando as histórias de bebedeira de um sujeito cabeludo cujo apelido era “passa-mal” enquanto ele se agitava e esfregava a perna cabeluda em mim. Eu estava pronto também para chegar na praia já tendo ouvido a discografia completa da Ivete Sangalo e do Jeito Moleque graças ao indescritível abominável gosto musical do dono do carro para “ir entrando no clima de praia”. Eu estava pronto também para o dito sem noção e sem direção perder-se nas estradas e nos bairros esburacados da cidade. Eu estava pronto para agüentar as piadinhas do Passa Mal sobre dormir na praia ou no banco de praça e pronto também para os retardados que preferiram ir direto para a praia e procurar o apartamento depois. Logicamente eu estava pronto para o fato do tal apartamento ser minúsculo, sujo, escuro, sem mobília e ficar a 10 quilômetros da praia mais próxima. Eu estava pronto para o trânsito infernal até a praia, os semáforos, o calor no carro, o sol de rachar, a dificuldade para estacionar e os flanelinhas que aparentemente brotavam do chão e cobravam mais caro do que qualquer estacionamento na Avenida Paulista. Eu estava pronto para a cerveja quente e cara, para o frescobol alucinado, o surfista psicopata, a grana apertada, o sol escaldante, o protetor solar vagabundo, areia na boca e até para o depravado do dono do quiosque cobrar R$ 1 para usar a ducha dele. Eu também estava pronto para 4 dias de calor infernal de manhã e de chuvas torrenciais no final do dia, lama para todos os lados, areia entre os dedos, no cabelo, na comida, no chão do apartamento e no meio das cuecas. Baratas, pontas de becks para todos os lados, latas de cerveja dentro da minha mochila, eu também encarei numa boa. Eu estava pronto, afinal de contas, para a falta de luz, falta de água e supermercados com preços de fazer corar as donas da Daslu. Eu também estava pronto para as meninas lindas e gostosas e seus namorados encrenqueiros que preferiam ser esfregar em outro macho dizendo que era para tirar satisfações. Garçom ignorante, policial truculento, vendedor folgado, eu estava pronto. Pneu furado, falta de gasolina, comida ruim, eu estava pronto. Multa de estacionamento, queimadura de sol, micose, eu estava pronto. Subir a serra de madrugada com neblina, todo ardido sem banho, eu estava pronto. Pagar todos os pedágios de novo, eu estava pronto. Ouvir Jeito Moleque de novo, eu estava pronto. Chegar cansado, dolorido e tendo poucas horas de sono antes de encarar o trabalho eu estava pronto. O que eu não estava pronto era para a bendita frestinha que eu deixei aberta no vidro do meu carro e encontrar uma piscina no meus bancos novinhos...

coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 3 sublimes almas