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Porção de Torresmo

Terça, 3 de Abril de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Este texto é a parte 3
Parte 1: Na Escuridão com Madonna
Parte 2: Hotel Pão com Linguiça

De dentro do bar, Torresminho viu quando o sujeito estranho, que havia saído todo torto do Hotel Pão com Lingüiça, parou no ponto de ônibus. Tomou mais um gole de seu coconhaque - suco de côco com conhaque, drinque que inventou, batizou e que consumia todas as manhãs - e ficou observando enquanto o rapaz, aquele mesmo que o havia importunado durante a madrugada, no hall do hotel, comprava um guarda-chuva típico do século passado, um bem grande, branco, com a imagem da Madonna estampada.

“Mas que filho da puta”, pensou Torresminho, lambendo o bigode e lembrando as cenas da noite anterior.

Teve por um instante o impulso de dar uma boa lição no infeliz, mas desistiu em seguida. O sujeito já devia ser triste o bastante. Merecia viver para amargar o desprazer de sua existência. Além do mais, pelo jeito de andar, parecia que o homem já havia acabado de levar uma bela surra - ou que tinha dormido sobre uma pia.

O objetivo de Torresminho ali era outro. Esperava pela saída da garota que havia chegado ao hotel com aquele pobre diabo. Ninguém havia reparado, nem Joné - que vinha a ser o acompanhante da moça - e nem o próprio Pão com Lingüiça, mas aquela prostituta era uma dessas celebridades instantâneas. Tinha ficado famosa depois de escrever um livro contando suas experiências profissionais.

E isso vinha muito a calhar para Torresminho, já que ele tinha um segredo que nem mesmo Pão com Lingüiça, seu companheiro de tantos anos, sabia: era um serial killer. Sua especialidade era matar quase famosos e celebridades pé-de-chinelo.

Torresminho mal podia esperar para acalmar sua sanha. Quando a mulher deixou o hotel, aparentando fome e desânimo, Torresminho logo a abordou convidando-a para um cafezinho e um pão com manteiga. Em dez minutos, levou-a a seu apartamento. Lá, obrigou-a a beber óleo fervendo em grande quantidade.

No dia seguinte, os jornais sensacionalistas estamparam mais uma vez manchetes como: “Mais uma vira torresmo de dentro pra fora”, “Virou Torresmo na Barra Funda” ou “Maníaco do Torresmo, manera aí”.

Torresminho regozijava-se. Provava para si mesmo que não era apenas um lambe-botas de Pão com Lingüiça. E alimentava o antigo sonho de um dia tirar a vida de seu próprio "mestre". Afinal, este também já havia sido uma celebridade B.

Voltou para o hotel e sentou-se ao lado de Pão com Lingüiça, que assistia, com lágrimas nos olhos, a um campeonato de sinuca na ESPN. Matá-lo nesta situação não faria o menor sentido. Antes dar cabo de Pão com Lingüiça, Torresminho teria que fazê-lo reviver a glória no bilhar para que fosse um quase famoso outra vez. Ou pelo menos encaixá-lo como estrela decadente em uma entrevista no Superpop, o que daria na mesma. 



Mentex e Costela | 4 comentários