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Por ter feito aquilo

Quinta, 11 de Janeiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

De pé via a própria angustia estampada em seu rosto, refletida na janela do quarto. Via também a parte inferior do tambor refletir a luz do dia lá fora. Não conseguia enxergar o cano por aquele espelho involuntário, mas sentia-o forte contra a fonte.

Os olhos inundaram de um desespero, que de tão intenso parecia descabido, mas não era. Fechou-os, pois não queria mais ver. Quando os abriu uma ruiva cor dava cores ao reflexo pastel de sua palidez. Era Emilia. A não mais doce Emilia.

Disse que ele não devia ter feito aquilo a ela. Que ela não merecia. Ameaçou consentir, mas antes das palavras veio a coronhada. Sem força para derrubá-lo ou fazer perder os sentidos. Emilia era tão miúda que o .38 parecia uma .44 em seu punho.

Não deixou que virasse ou explicasse qualquer coisa. “Não há desculpas para o que você me fez”. Não havia mesmo, ele sabia, mas queria ganhar tempo. Tempo para pensar em algo que o tirasse dali. Um terremoto, por exemplo.

Mas em Ipanema não tem terremotos. Nunca teve. Pensou em um maremoto ou tsunami, mas uma nova coronhada o fez voltar a realidade: não havia saída.

“Emilia, já faz tempo” – tentou argumentar enquanto ela algemava suas mãos para trás. “Sete anos, Roberto. Sete longos anos. Sai de São Leopoldo e vasculhei cada canto deste país atrás de você, seu cachorro. Hoje, finalmente, te encontrei”. “Não faça nenhuma burrada, vamos conversar”. “Burra eu fui ao confiar em você”.

Realmente fora, ele lembrou. Sabia que não poderia escapar desta. Iria pagar pelo que ele fez e pronto. Sabia que até seria justo que ela o matasse pelo que fez.

“Acaba logo com isso, Emilia” – desafiou, já desanimado. “Esta é a única coisa em que você realmente tem razão, seu pulha”. Então tirou o revolver de sua fonte, o virou, cuspiu em sua cara e disparou. O sangue, o urro e Roberto contorcendo-se em forma de canivete no chão, com as mãos nas costas.

“Uma pena destruir a única coisa boa que você tem”. Pôs o revolver numa bolsa, tirou as luvas, colocou uma na boca dele e saiu.

Roberto não conseguia mais gritar, a dor era muita, sangrava demais. Não conseguiu levantar. Nem ligar para ninguém. Já nem pensava mais em safar-se. Arrependeu-se em ter feito o que fez com Emilia. Mas a amaldiçoou, pois pelo que ele fez a ela, merecia morrer, mas não há cousa que um homem faça que justificasse um tiro nos ovos.

    

Introduzido (ui!) por fezon, o que virá | Comente e ganhe prêmios! (um caiu)