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Perna-de-pau
Perna-de-pau
Quinta, 12 de Julho de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Cansada de vender cachimbos exóticos na Praça da Sé, Rigoberta, uma guatemalteca de 19 anos metida com artesanato pesado, resolveu partir pra outra.
Durante os anos em que ela esteve no “comércio” no centro de São Paulo, dois garotos que pareciam ser bolivianos lhe chamavam a atenção. Todos os dias, usavam um método um tanto criativo pra despistar a polícia.
Eles sabiam exatamente os horários em que a fiscalização dava as caras por lá. Um deles vendia um controle-remoto power que funcionava em TV, som, DVD ...
Ligava e desligava qualquer coisa, além de ter as funções de torradeira, cafeteira e grill. Já o seu vizinho de Praça vendia uns monstrinhos coloridos de plástico que ao contrário do produto do amigo não serviam pra nada.
Quando percebiam a presença dos fiscais, os dois tiravam de uma sacola suas pernas-de-pau dobráveis. Sobre elas, ficavam andando de um lado para o outro, enquanto chupavam carambola.
Eles imaginavam que ninguém iria desconfiar de alguém que chupasse carambola sobre pernas-de-pau. Assim que o perigo passava, os meninos saltavam de suas pernas e voltavam a gritar.
“Monstriiiiiiiiiiiinhos é só um real.”
“Olha o controle, controle, controle-remoto é dois por dez.”
A cena dos garotos subindo e descendo das pernas ficou na cabeça de Rigoberta. Tanto que durante meses e meses ela sonhava com aquilo todas as noites. Certo dia, a jovem resolveu juntar todos os seus cachimbos e montar as suas próprias pernas-de-pau.
Não é que deu certo! Ficaram tão altas que quando Rigoberta subia nelas ninguém conseguia enxergá-la entre as nuvens. Então, ela incorporava o índio monorelha e fumava o seu cachimbinho. Não dá pra dizer que sua vida era tranqüila, porque o índio via de perto o caos aéreo.
Quando o tempo tava bom e os aviões não passavam por turbulências, o índio monorelha conversava com Indra Lal, um piloto indiano que apesar de aposentado não abria mão de viajar de Nova Delhi a Curitiba todos os dias.
- Não agüento mais esse caos, monorelha.
- Calma Indra, eu vou dar um jeito nisso.
- O que vai fazer, seu maluco?
- Vou controlar essa m... de tráfego aéreo.
- É isso aí!
O plano funcionou por um tempo até o dia em que a sacola com a perna foi roubada do balcão de um boteco, enquanto Rigoberta ou o índio monorelha tomava um chá guatemalteco em uma manhã de folga.
Como daria um trampo absurdo construir outras pernas daquele tamanho, o índio monorelha, no corpo de Rigoberta, descobriu sua nova paixão, o salto com vara.
Ela aproveitou uns cachimbos velhos e esculpiu a sua própria vara. Atualmente, é recordista da América Central e se prepara pra disputar os Jogos Pan-Americanos no Rio, sexta-feira 13, seu dia de sorte.
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