Blogs do Morfina
Menu Lateral
Perticipe do Morfina Sobre o Site Fala com a gente Acesso o arquivo Participe do Morfina
Home > > Perdas

Perdas

Quarta, 9 de Abril de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

    Andava pela rua sempre procurando alguma coisa. Os óculos, a tarraxa do brinco, o isqueiro... Mesmo sem saber se tinha perdido algo, corria as mãos pelo corpo, bolsos e fechos da mochila atrás de indícios de uma possível perda.

Certa vez, ao entrar no ônibus, subindo os degraus apertando contra si a bolsa, a carteira ou qualquer outro objeto que carregava, escutou um sibilar de metal correndo pelo piso metálico do transporte público.

_ Meu deus, o que foi que eu deixei cair desta vez?

Correu os olhos pelo chão. Nada

Foi passando entre os apertos do coletivo no horário de pico, procurando qualquer coisa que pudesse dar indício de sua perda. Conseguiu sentar-se quando um jovem rapaz levantou para descer.

Ao lado, uma velha senhora sorria como que dizendo bom dia. Nem pôde notá-la, continuou a procurar por alguma coisa.

_ O que está procurando, meu bem? – perguntou a velhinha.

_ Na verdade não sei, mas senti que deixei cair alguma coisa por aqui.

_ Ah, eu vivia perdendo de tudo também, saía de casa e já deixava cair moedas, grampos de cabelo, relógio...

Tentou não dar muita trela para a senhora, ainda a correr os olhos desesperadamente por todos os cantos, mas a velhinha insistiu:

_ E não é que eu perdia tanto as coisas que me acostumei a perdê-las. Me perguntava a cada minuto: O que foi que eu perdi desta vez? O que deixei passar? O que deixei cair? E só pude entender há pouco tempo o que eu realmente perdi.

Não tolerando mais a impaciência naquela situação, deixou-se levar pela velha e virou-se, quase que agressivamente, perguntando: _ Me diga, senhora, o que você perdeu?

_ Perdi tempo. Procurando por coisas inúteis, que são feitas para cair dos bolsos mesmo, e lembrar-nos de abrir mão de tudo, pois agora, perto de meus últimos dias, reconheço que nada dessas pequenas coisas me acompanharão, nem serão lembranças de minha passagem por aqui. Mas você ainda é moça, terá tempo de perceber tudo isso.

Ficou em silêncio, procurando mais uma vez achar sentido para tudo aquilo que a senhora falava. Esqueceu-se por um instante do que tanto procurava e perdeu-se em pensamentos distantes.

_ Mas agora preciso ir, que não há mais tempo a perder – a velhinha continuou – de nada vale procurar a não ser seguir, aproveitando cada instante e cada perda, que elas nos façam lembrar que tudo acaba, tudo se vai, fica apenas o que de bom fizemos por aqui, e quanto mais, melhor.

A senhora despediu-se, levantou e desceu pelas escadas, andando em passos lentos, distanciando-se do ônibus enquanto tantos outros passageiros se amontoavam lá dentro. Uma garota sentou-se ao lado e pareceu apertar contra o peito a bolsa, evitando que algo caísse ou fosse roubado.

Mas a esta altura, já não fazia mais sentido procurar por algo que nunca seria achado.


Canalizado em PVC por Ivan Volpe | Fale bem, mal... Fale alguma coisa