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Pela estradaSábado, 7 de Abril de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Desde menininho, ruminando e mastigando o mundo, jogado na imensidão do capim e da terra batida, o cantador e profeta de viola segue seu rumo incerto em uma estrada isolada e verde do interior brasileiro. Perdido entre o asfalto e a caçamba de um velho caminhão vermelho, mas muito achado em seu destino como salvador de almas, o artista popular de pequenas multidões relembra suas passagens pelos grandes palcos das cidadezinhas, que se mostram modestas e solitárias em todo um sertão castigado pela ignorância e pela falta de luxo.
Mas voltava, a cada solavanco, para a estrada capataz, que o levava a uma verdade mais voraz, uma voz e um violão, contra a espingarda que repousava em outras mãos. Prestes a encarar de frente a dor e reencontrar seu fim de onde decidiu partiu há muito. A estrada o levava a sua cidade natal, seus primeiros filhos, um pai, o aval normal de um homem decente e digno, como se regressasse do mal. Olhou em volta, pensou na morena, tirou pequenos acordes mancos da viola serena, cantando triste e relembrando o refrão. Cavalo esperto não espanta a boiada, seria esta sua matuta virada, aceitando o destino que perseguiu desde fraco e mirradinho. Respirou fundo a mistura do ar e do caminhão e dirigiu-se ao anfitrião: – Seu motorista, vai parar em algum outro ponto, uma cidade acolhedora senão o final da estação? E desceu livrando-se da poeira acumulada, fez reverência como se aguardasse aplausos da platéia de passageiros na caçamba e olhou ao longe a estrada sem fim, que o levaria, quiçá, ao seu destino real, entre a balança moral e sua grande paixão, a terra, o asfalto, o babado capim. Suspirou como digno filho do senhor, ergueu a mala e a viola e, a passos lentos, caminhou em direção ao seu amor, tendo certeza de que o regresso a seu verdadeiro lar seria voltar de onde saíra, dos braços de sua caipira, que tanto se pôs a chorar. E assim disseram do artista, que jamais voltou, jamais pegou outra pista. Cantou para quem quis ouvir e, driblando esta vida marvada, fez as vezes de ser mais feliz.
Canalizado em PVC por
Ivan Volpe | Fale bem, mal... Fale alguma coisa
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