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Pedinte de pedra

Segunda, 27 de Agosto de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Bem que poderiam aproveitar o novo tratado da língua portuguesa e mudar a palavra mendigo para mindingo, ou ainda mindjongo. Pois é exatamente este o assunto de hoje: mendigos, e não língua portuguesa (este assunto deixo pro Professor Pasquale, o Oswald de Souza do Português). Em todo bairro, e acredito que em Copacabana (bairro onde moro e fui criado em condições adversas e permissivas) um pouco mais, existem muitos mendigos. Mas existem aqueles mendigos que cativam os nossos coraçõezinhos capitalistas: os mendigos-malucos. Sempre carismáticos, são invariavelmente acolhidos pela população local, que além de lhes fornecer comida e algumas roupas, dão a eles também novos passados, criando verdadeiros mitos que viram alvo de especulação de adultos e zombaria de crianças.

Toda criança que se preze tem o seu mendigo-maluco de estimação. O meu era o Matemático. Ele morava bem perto da minha tia-avó, que, se não fosse pelo fato de possuir uma moradia, também seria uma mendiga-maluca. Mas voltando ao Matemático, ele era chamado assim porque vivia fazendo contas, ficava o dia inteiro rabiscando um papel com operações. Sempre pensei em dar os meus deveres de casa para que ele fizesse, mas nunca tive coragem. Acho que não fiz mal, afinal as pessoas davam lápis e papel a ele, mas nunca vi ninguém corrigindo aqueles papeis encardidos.

Em paralelo existia o Cheira-Éter. Sua presença era sentida a metros de distância só pelo cheiro de éter, como explica seu apelido. Ele ficava lá, numa boa, cheirando seu barbitúrico sem incomodar ninguém. O que chamava atenção mesmo eram as diversas versões sobre seu passado. A que eu mais gostava dizia que ele era um médico rico e bem-sucedido que perdeu a família num acidente de carro, e desde então enlouqueceu. Nunca acreditei, mas o enredo é bem bom.

Depois veio a Maria-Maluca. Esta era uma velha esquelética que andava de um lado para o outro com uma garrafa de Big Coke (ninguém mais fala assim, né?) cheia de água. O grande esquema era passar por ela e gritar: MARIA-MALUCA!!! E ela vinha enfurecida com sua garrafa, jogando água no autor do grito. Eu só nunca entendi porque as pessoas fugiam, afinal, era só uma velha magrela armada com água. Mas, por via das dúvidas, eu fugia também.

Teve também o Bozo. Alias, Bozo é um apelido meio genérico para mendigo. Já vi uns vinte Bozos em diferentes bairros e cidades. Mas enfim, esse era completamente autista e vivia conversando com um amigo imaginário que o acompanhava para cima e para baixo. O curioso do Bozo eram suas vestes. Ele usava a camisa no lugar da calça, sempre. As pessoas davam cuecas, calças, bermudas e ele ignorava solenemente a correta função daquelas vestimentas. Já tentei seguir essa moda, mas não ficou muito bem em mim... As mangas das camisas apertavam minhas coxas.

Acho sinceramente que os mendigos-malucos não são valorizados como deveriam pela sociedade, mas fico feliz em perceber que isso está mudando. Hoje em dia já tem mendigo-maluco fazendo filme em Hollywood, sucesso na Europa e até dueto musical com a Ana Carolina. Uma coisa a gente tem que concordar: mendigo-maluco tem talento.   

a gerência agradece, Ricardo Dolla | 4 comentários