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Pão com ovo
Pão com ovo
Quinta, 6 de Setembro de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Eram cinco horas da manhã quando o despertador da guatemalteca Rigoberta tocou. Era sinal de que tinha vinte e três minutos para chegar até o açougue do Xiriba, onde trabalhava há quase três semanas.
Mas naquele dia uma coisa muito estranha estava por acontecer. Rigoberta levantou da sua confortável rede de juta, fumou seu cachimbinho matinal e comeu um pão com ovo. Quando estava prontinha pra sair de casa, sentiu uma baita dor nas costas e mesmo assim tentou ir para mais um dia de trabalho.
Eram 5h17 e não tinha uma alma na rua. O céu estava esverdeado e uma ventania que vinha do noroeste do estado já chegava ao bairro do Limão, onde ficava a pensão da D. Xepa, na qual alugava um quartinho.
Começou a suar frio e pensou que talvez aquele mal-estar tivesse sido provocado pelo sanduíche de ovo colorido que havia acabado de comer. Saiu da pensão e foi andando, ou melhor, cambaleando, até encontrar o ponto de ônibus.
Viu uma senhora sentada no banco e tentou trocar algumas palavras com ela.
“Brao ble paf goen ufg non mi lei”
“Desculpe moça, mas eu não falo a sua língua.”
Rigoberta continuou tentando.
“Enjy clevs brats robe nuno flav bratis lava”
“Não estou entendendo nada, moça. Tente fazer mímica”, disse a senhora ao mesmo tempo em que agachava e levantava rapidamente e fazia uns gestos um tanto quanto bizarros.
Foi a última imagem que ficou na cabeça de Rigoberta, antes de apagar. Ela deu uma pirueta antes de cair estatelada no asfalto. Amedrontada, a senhora abriu seu guarda-chuva e saiu correndo para não se comprometer.
Alguns minutos depois Rigoberta acordou, olhou para o céu esverdeado e tentou se levantar. Então, percebeu que não estava no bairro do Limão, nem em São Paulo e muito menos no Brasil. Estava na sua terra – a Guatemala, no meio de um povoado maia.
Ao seu redor, pessoas de baixa estatura, braços compridos, mãos e pés pequenos, cabelos negros e lisos cantavam. Rigoberta olhou para os seus próprios braços e pernas e percebeu que havia encarnado o índio monorelha.
Na verdade, aquele povo estava prestando uma homenagem ao índio monorelha, que estava à beira da morte. Foi então que ela percebeu que o seu lado índio estava morrendo.
Quase sem forças, apenas conseguiu dizer “cjki kle sdafuo”, traduzindo “Por favor, preciso de um cachimbo.” O monorelha pitou o cachimbo com toda a sua força e bateu as botas.
Todo povoado cantou a morte do monorelha. Ainda tonta e com mal-estar provocado pela morte do seu lado índio, já que é o mesmo corpo da jovem, percebeu que não estava mais no povoado maia e sim no ponto de ônibus do Limão. Rigoberta viu a senhora correndo com o guarda-chuva na mão ao mesmo tempo em que o seu ônibus chegava.
Seu Xiriba estava a esperando furioso na porta do açougue de braços cruzados. A loja estava uma bagunça, as vitrines sujas e muitas peças de carne no chão. “O que aconteceu por aqui?”
“Não sei, Seu Xiriba, eu estava na Guatemala.”
“Essa não, eu já falei mais de mil vezes que não é para tomar a ‘Jussara’, porque é a cachaça que eu uso pra temperar as chuletas.”
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