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PalhaçoQuarta, 28 de Março de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor As onze badaladas surdas cortando o breu da noite foram o sinal para que ele saísse sorrateiro, deixando um rastro de adrenalina que fez Milu levantar a cabeça e farejar as intenções de seu dono. Era a melhor hora do dia para boiar. Brisa fria, água fria, terra fria. O conjunto dava-lhe a sensação de que sua cabeça e seu coração esfriavam um pouco também. Estava precisando. Tirou a roupa e mergulhou abrindo os olhos, como se buscasse estrelas tocando o chão. Subiu de volta e apontou o umbigo para a lua, fechando os olhos para não cair à tentação de fazer um pedido a uma estrela cadente que insistisse em atravessar o seu caminho. Sabia o que pediria, e também sabia que era impossível sua realização. Profilaxia: enquanto não conseguisse pensar em outra coisa, não olharia mais para o céu. A água não o abraçava porque ninguém mais o fazia. Ela o carregava como mãos desconhecidas, se aquele fosse o corpo de um herói. Apesar da idade avançada, era um homem forte, de estrutura. Ele lembrou-se de quando era criança pedindo uma menininha da escola em namoro, esperando sua resposta por uma semana. Queria reviver aquela sensação de tranqüilidade e desprendimento. Esperou por sete dias sem cogitar sequer uma vez se a menina aceitaria ou não. Tudo era mais importante: o campeonato de futebol de salão, a prova de ciências, a ida ao Playcenter no sábado. Difícil resgatar a inocência do amor infantil. Podia jurar que a água ao redor de seu corpo esquentava, quase em ebulição. Pensou, quase sem querer, no rosto da outra menina que o assombrava há anos. E na última vez que vira seu amigo, com ela. O outro fantasma. Abriu os olhos e empurrou seu corpo para o fundo d'água, pulmões vazios, tentando eliminar toda a oxigenação que tornasse possível a formação de uma imagem nítida em sua mente. Foram 7 minutos. Nenhum rosto sobreviveria sem o ar para alimentar. Nadou até a margem, saiu e caminhou nu, sem secar-se, plantando-se debaixo de uma árvore o resto da noite. Vida rural era boa por isso, ainda havia árvores onde homens pudessem acostar. Esgotar o pensamento ali lhe daria dores de cabeça e o libertaria. Doeu, tinha razão. Voltou à casa quatro horas depois, determinado. Calçou um par de pantufas e foi tomar um copo de leite, como se brindasse consigo sua decisão. Lá estava ele, no canto direito do armário embutido. Tentou diminuir as rugas do casaco de seda verde apenas alisando-o com as mãos, sem nenhum sucesso. Foram anos de esquecimento, só tirá-lo do saco plástico que o protegia já perfumava o ar com naftalina. As calças roxas certamente ficariam mais largas que antes. Em 15 anos ele perdera muito peso, devido à falta de dinheiro, mas ainda conservava a vivacidade nos olhos, que sorriam ao rever o traje montado na cama. A grande flor vermelha, os suspensórios amarelos, a camisa de bolinhas, a gravata borboleta. Boas lembranças. A ocasião era de homenagem. Mas falecimentos nunca são boas ocasiões para homenagens, todos os piores diabos viram santos, deitados serenamente no leito eterno. Nunca mais se deram bem, não entendia porque tinha que ir. Rompimentos devem ser eternos. A bailarina sempre foi solícita. Sua paz inabalável era uma virtude, parecia saída de uma caixinha de música. Por que não ela? Talvez pela melancolia de seus gestos, pela música que tocariam em seu número. É, certamente era por isso. O malabarista poderia fazer uma bela homenagem, também. Usar bolas coloridas, com as letras do seu nome desenhadas enquanto cantava uma de suas canções cheias de rimas. Só que resolveram chamá-lo. A ele, o palhaço. Que deveria mostrar-se triste por algo que ele mal sentia, e ao mesmo tempo provar que a vida continua e podemos sorrir. Trabalharam juntos por muitos anos, amigos inseparáveis, até aquela menina aparecer. Aquele momento. Os rostos de novo. Dor de cabeça. Separação. Nunca mais subiria no trapézio e o outro jamais lhe espirraria água no rosto com a flor de plástico. Não invadiriam seus terrenos para confraternização alguma, era cada qual com seu espaço e seus adornos. Cada qual com suas meninas. Deixou o circo por ter perdido o melhor amigo e o grande amor, guardou as roupas e o sorriso fácil no armário com bolinhas de naftalina. Mas quem coloca naftalina nos pertences é porque tem a esperança de usá-los novamente, talvez isso tenha restado nele – a necessidade de conservar a lembrança era óbvia. Já vestido, dirigiu-se ao espelho carregando sua maquiagem. Pintou o rosto de branco e desenhou sobrancelhas grandes, com um lápis preto. Preencheu-as de azul celeste, que fazia seus olhos luzirem ainda mais verdes. Desenhou um coração na bochecha, pequeno como o seu estava. Pintou-o de vermelho, e foi à boca. Normalmente fazia uma lua crescente, bonita, sorridente. Mas as pessoas poderiam comentar sobre a sua falta de sensibilidade. Pensou então na lua minguante, a boca triste de palhaço sofredor. Contudo, estaria mentindo. Não estava triste. Tampouco feliz. Poderia ir sem lábios, deixá-los brancos. Não seria um palhaço, então. Pelo menos para aquele corpo inerte, jamais seria palhaço novamente. Tinha prometido, mas de que valem as promessas diante de um morto? Resolveu desenhar um lado para cima, outro para baixo. Pintou o sorriso de amarelo, não havia cor melhor. Olhou para a flor seca, que desde aquele dia nunca mais recebera a água para molhar os rostos desprevenidos e pensou, por um segundo, em levá-la e deixá-la nas mãos do ex-amigo, como um gesto simbólico de perdão. Jogou-a de volta na cama e saiu apressado. Já estava atrasado e o show que pensava encerrado para sempre, tinha de começar.
devaneio de:
Sil Curiati | 3! E o cordão dos puxa-saco cada vez aumenta mais!
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