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Outro conto do Léo

Sexta, 18 de Julho de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Mestre na/da beira do mar (Leonardo Octavio)

 

Verão. Alto verão. Sem samba da estação. Praia lotada. Sol cretinamente ardido. Fila para tudo. Mulheres feias. Homens feios. Crianças feias (e encapetadas... o que, logicamente, as tornam mais feias). Tudo feio.

Jogos de futebol, vôlei, peteca e tudo o que possa acertar um tranqüilo homem que tenta (com algum esforço) curtir o seu sábado pela tarde. Realmente, invadiram a minha praia.

Pior. Não sei onde estava com a cabeça quando decidi vir. O idiota. À lá Dostoievski. Pedágio subiu. Um assalto, praticamente (prática antiga essa...). Inflação. Aluguel pra pagar. E a pensão (como estaria aquela vadia?!!). E o banco (meu gerente já decorou o telefone de casa... e isso não é um bom sinal). E o cartão de crédito. E os salários dos empregados. E o IPVA. E o IPTU. Deve ter algo mais, é claro.

Reviro-me. Mas é duro ser lúcido (principalmente num lugar onde as pessoas se esforçam para não ser). Decido-me. Vou caminhar na beira do mar. Não sei o porquê nem como, mas o mar é algo místico, que mexe com o ser, talvez pela aparente infinitude. Ando desenganadamente numa linha que parece não ter fim, assim como esse tempo...

Chegou o arrabalde. E com ele, o mar revoltoso. Revolta que me acalma. As pessoas indo embora, perdendo o momento mais belo de um dia à beira mar. Fico ali num rochedo, pensando, ou melhor, admirando um espetáculo solitário, sem ensaio...

E, num momento como esse, aproxima-se um senhor, com longuíssimas barbas brancas, chapéu panamá, vestindo um terno alinhado e calçando um belo par de sapatos. Acende um cachimbo e senta-se perto de mim. Começa a cantar:

“Ói, por dentro das águas há quadros e sonhos
E coisas que sonham o mundo dos vivos
Há peixes milagrosos, insetos nocivos
Paisagens abertas, desertos medonhos
Léguas cansativas, caminhos tristonhos
Que fazem o homem se desenganar
Há peixes que lutam para se salvar
Daqueles que caçam em mar revoltoso
E outros que devoram com gênio assombroso
As vidas que caem na beira do mar
É na beira do mar”

Reconheço a música e comento:

- É de Zé Ramalho.

Ele sorri e diz:
- Não, meu filho. Essa música é do mar. É da beira do mar.

Nisso, o mar se agita de forma terrível. Penso logo em fugir dali, mas algo me prende (possivelmente a curiosidade mórbida de quase todos os seres humanos.) Aproxima-se uma baleia. Sim, uma baleia. Pára ali, na nossa frente.

Então, o homem se levanta calmamente. Batendo a areia de suas calças:

- Até mais, homem.

Caminha até a baleia, que abre a sua boca para que entre. Então percebi. Não cantavam mentiras aquela dupla.

O Homem? Um Mestre. Chamava-se Jonas.

Um Santo homem.
 



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