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Ossos do Ofício

Quinta, 1 de Fevereiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

A sala de espera era minúscula, cinco ou seis cadeiras amontoadas umas sobre as outras. Uma recepcionista nem feia, nem bonita. Talvez um pouco simpática, mas a falta completa de maquiagem me incomodava. A uns quarenta centímetros de mim, um rapaz folheava uma edição velha da Caras. A princípio, nada de mais. Ele usava uma camisa com finos fios verticais na estampa, e sapato social. Não gosto de homens que usam sapato social. Mas não sei bem o motivo, com o passar dos minutos ele foi ficando mais ahn... atraente. Talvez pela monotonia da sala de espera por uma consulta no dentista. Você precisa arrumar alguma coisa para se distrair, e talvez um grande amor seja a opção do momento.

Mas como começar um papo? A distância física era pequena, mas os nossos pensamentos pareciam separados por dezenas de milhares de quilômetros. Não dava para dizer “oi, tudo bem?”, afinal ele não desgrudava os olhos das páginas da revista. Pensei em fingir um desmaio. Não, não ia funcionar. Eu ia acabar no hospital tomando uma injeção na veia totalmente desnecessária. Pensei em pegar o celular na bolsa e começar a comentar em voz alta as minhas supostas visitas a clubes de swing, mas achei que seria abusado demais da minha parte. Então eu fiz o mais óbvio: deixei cair no chão a minha ponte móvel. Afinal, nenhum lugar pode ser mais propício que um consultório de dentista para aplicar a velha tática da ponte móvel que desprega da boca.

- Caramba, desculpa! –disse eu, já sem três dentes frontais – Minha ponte caiu aí atrás do seu pé, você pode pegar pra mim?
- Hum, deixa ver aqui... São os dois da frente mais um do ladinho? – perguntou ele, com carinho.
- Isso! São estes!
- Desculpa, não quero ser chato ou inconveniente, mas para provar que são mesmo os seus dentes, será que posso fazer mais algumas perguntas a título de segurança? Sabe como são as coisas, não quero entregar a você dentes que podem pertencer a outra pessoa, porque quando ela vir aqui buscar, o que vou dizer?
- Er... Tudo bem, pode perguntar o que quiser.
- Os dentes da sua ponte são intactos?
- Não, o do meio tá careado, e os outros dois já têm pontos pretos, logo vão para o brejo também.
- Obrigado pela confirmação dos dados, agora posso te entregar o equipamento. Mas antes por favor assine este termo de responsabilidade. Qualquer dano causado à ponte, cobraremos da senhorita explicações e eventuais custos de reconstituição.
- Tá certo...Obrigada.
- Posso ajudá-la em mais alguma coisa?
- Não, é só isso mesmo.
- A Jubileu de Prata – Recuperação de Pontes Dentárias Ltda. agradece o seu contato e tenha um bom dia.

E o distinto rapaz voltou a ler a Caras exatamente da página onde estava quando foi interrompido.



por Vanessa Marques | 4 alguéns


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Ossos do ofício

Quarta, 3 de Outubro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Era sempre no mesmo horário, no mesmo local.

Joel passava de carro e via sua paixão loira, rosto angelical, esperando o ônibus.
Linda, cabelos invariavelmente presos na nuca, calça jeans, camiseta. O ideal de simplicidade, e ainda assim reluzia. Pele branca, olhos castanhos, mal se via a sobrancelha, de tão clara.
Carregava sempre uma mochila surrada e muitos cadernos. Ainda não tinha conseguido identificar se estava na escola, no cursinho, na faculdade. Definitivamente o rosto era de pupila. Não parecia de uma inteligência ofensiva, apenas alguém que conseguia manter-se na média, como ele próprio se definia.

Um dia resolveu seguí-la. Ou melhor, seguir o ônibus.
Ela desceu apenas 20 minutos depois, na avenida Paulista. Observou-a mais um pouco e partiu, dando curso ao seu dia.

Mas o acaso às vezes dá uma mãozinha aos apaixonados. Numa daquelas manhãs, na tentativa desesperada de fugir da chuva, a menina, impaciente e ensopada, bateu na janela do carro de Joel, que estava parado em frente ao ponto do ônibus atrasado. Ele, com o olhar perdido e a fala completamente atrasada pelo susto, abriu a porta e pediu que entrasse.
Não deixou que ela dissesse nada - a emoção impediu que ouvisse sua voz, também - e imediatamente levou-a à avenida de todos os dias.

Calada, ela desceu do carro e sorriu. Ele, vendo-a correr para os braços de um desconhecido, partiu triste, zerando o taxímetro e tentando lavar o coração doente com a chuva ácida de São Paulo.
Levá-la ao seu destino eram os ossos do ofício.

devaneio de: Sil Curiati | Querendo agradar