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Ossos do OfícioQuinta, 1 de Fevereiro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor A sala de espera era minúscula, cinco ou seis cadeiras amontoadas umas sobre as outras. Uma recepcionista nem feia, nem bonita. Talvez um pouco simpática, mas a falta completa de maquiagem me incomodava. A uns quarenta centímetros de mim, um rapaz folheava uma edição velha da Caras. A princípio, nada de mais. Ele usava uma camisa com finos fios verticais na estampa, e sapato social. Não gosto de homens que usam sapato social. Mas não sei bem o motivo, com o passar dos minutos ele foi ficando mais ahn... atraente. Talvez pela monotonia da sala de espera por uma consulta no dentista. Você precisa arrumar alguma coisa para se distrair, e talvez um grande amor seja a opção do momento.
por
Vanessa Marques | 4 alguéns
Ossos do ofícioQuarta, 3 de Outubro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Era sempre no mesmo horário, no mesmo local.Joel passava de carro e via sua paixão loira, rosto angelical, esperando o ônibus. Linda, cabelos invariavelmente presos na nuca, calça jeans, camiseta. O ideal de simplicidade, e ainda assim reluzia. Pele branca, olhos castanhos, mal se via a sobrancelha, de tão clara. Carregava sempre uma mochila surrada e muitos cadernos. Ainda não tinha conseguido identificar se estava na escola, no cursinho, na faculdade. Definitivamente o rosto era de pupila. Não parecia de uma inteligência ofensiva, apenas alguém que conseguia manter-se na média, como ele próprio se definia. Um dia resolveu seguí-la. Ou melhor, seguir o ônibus. Ela desceu apenas 20 minutos depois, na avenida Paulista. Observou-a mais um pouco e partiu, dando curso ao seu dia. Mas o acaso às vezes dá uma mãozinha aos apaixonados. Numa daquelas manhãs, na tentativa desesperada de fugir da chuva, a menina, impaciente e ensopada, bateu na janela do carro de Joel, que estava parado em frente ao ponto do ônibus atrasado. Ele, com o olhar perdido e a fala completamente atrasada pelo susto, abriu a porta e pediu que entrasse. Não deixou que ela dissesse nada - a emoção impediu que ouvisse sua voz, também - e imediatamente levou-a à avenida de todos os dias. Calada, ela desceu do carro e sorriu. Ele, vendo-a correr para os braços de um desconhecido, partiu triste, zerando o taxímetro e tentando lavar o coração doente com a chuva ácida de São Paulo. Levá-la ao seu destino eram os ossos do ofício.
devaneio de:
Sil Curiati | Querendo agradar
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