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Os restos da arte

Segunda, 16 de Julho de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

    Eu realmente não sei porque eu deixo meu celular ligado quando vou dormir. É o tipo de coisa que você se pergunta quando o aparelhinho começa a gritar no sábado de manhã. 9h30. Só podia ser sacanagem.

- Alô...

- Sou eu. Acorda aí. Vamos beber.

- Puta merda, Zé, não sei nem por onde começar a te xingar. Vai dormir, caralho.

- Vamos beber. Terminei com a Ju.

- Ahn... estou indo... me dá uma meia hora...

Desliguei e fui me arrastando para fora da cama. Ela sussurrava meu nome de volta, com sua voz sensual e seu ventre morno. Amigo é amigo. Resisti às tentações do leito e fui recolher os cacos de um cara legal.

Ele estava transtornado, não havia dormido. Tentou até me convencer que ele havia sido um cara legal em não me ligar às 5, 6 ou 7 horas da manhã. Inutilmente. Em seguida me contou em detalhes cada frase da discussão da noite anterior que ele tivera. Cada sorriso, cada lágrima, cada nuance, cada erguida de sobrancelha que sua namorada, agora ex, ele descrevera. E falava desesperadamente, tentando remendar uma história desconexa. Buscava contar e recontar a história, talvez tentando encontrar uma brecha na rígida lei que estabelece que o passado não se muda.

Eu dirigia, ouvindo a tudo e tentando não dormir. Ele falava e falava e falava.

- Chega disso, vamos beber. Acha uma padaria aí, ele pedia.

Ignorei totalmente o pedido. Nem respondi. A cidade estava quieta no sábado de manhã. Nada aberto. Acabamos parando no Museu de Arte Moderna, desfilando entre objetos de formatos estranhos que não expressavam nada naquele momento. Nenhum de nós dois estava absorvendo nenhuma informação do resto do mundo. Eu porque ainda não estava convencido que estava acordado. Meu amigo porque estava impermeável ao mundo. Ele acabou indo absorver informações do café do museu, informações relativas à cerveja. Não seria eu quem separaria um coração partido de seu analgésico.

Tornamos para a galeria ampla novamente, ele com a lata na mão e eu com as mãos no bolso, mas fomos interrompidos. O segurança do museu, único ser vivo aquela hora, laconicamente deixava a gente saber que não era permitido levar comida e bebida nas galerias.

Meu amigo tinha já armado um discurso que deixaria muito claro que os objetos ali presentes ficariam muito melhor ornamentados com restos de comida e bebida, mas eu o interrompi no primeiro “Escuta aqui...” e arrastei de volta para o café do museu.

- A beleza... A beleza é inútil. Para que beleza? Para que amor? Para que arte? Foda-se tudo. A arte é dor!

O segurança já perdia a paciência conosco, únicos a perturbar a serena paz daqueles salões. Sentamos no café.

- Vai, me explica de novo porque vocês brigaram, eu pedi, enquanto ele engatava latas e latas de cerveja, uma atrás da outra.

Ele contava novamente, rodando em círculos com seu raciocínio cada vez mais torpe e com as palavras cada vez mais parecidas com as coloridas tentativas de arte no salão ao lado.

Uma pequena fortuna em cerveja depois, ele começou a dar sinal de incongruência. Estava anestesiado. A dor não diminuíra, mas ele já não conseguia mais expressá-la.

- Vamos, vou te levar para casa. Acho que você precisa dormir.

Ele resmungou incongruentemente através de toda longa galeria, enquanto eu o arrastava pelo braço. Em cada mão, uma lata de cerveja de marca diferente. Lá na ponta, o sol quente da tarde de sábado nos aguardava, mas ele parecia mais distante, O guarda surgiu do nada para exercer sua pequena autoridade brutalmente, tirando de mim satisfações. As latas eram proibidas.

O ditador dos pequenos espaços era tosco e intransigente, mas delicadamente expliquei que estávamos rumando para a saída e não voltaríamos tão cedo. Ele aquiesceu.

Já a gigantesca mijada que meu amigo desferiu numa instalação modernista, isso foi mais difícil de explicar.

coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas