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Os primeiros a gente nunca esquece

Quarta, 17 de Janeiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

As primeiras a gente nunca esquece, não é verdade? Os primeiros também não. O velho comercial, criado nos idos de 1987, já dizia para as mocinhas que o primeiro sutiã, não só um Valisére, era um caso desses, de não merecer nosso esquecimento. E é assim com tantas outras coisas. O primeiro beijo, primeiro namoro, primeira viagem com os amigos, primeiro carro, primeiro disco, primeiro filho...

E a primeira publicação na nova coluna não poderia ser diferente. Para comemorar o meu retorno com gosto de primeira vez, uma pequena seleção de primeiras faixas de primeiros discos que fizeram um pouco de história e definiram algumas coisas no mercado e na cabeça de muita gente.

Para começar, já que não vai ter muita ordem aqui mesmo, em 1963 o Kingsmen lançava "The Kingsmen in Person". A primeira faixa gerou uma das maiores representações da época das garage bands, "Louie, Louie". Muita gente regravou, inclusive eles mesmos, já que a faixa já tinha sido registrada na década de 50 pelos Wailers, mas a versão dos garotos de Portland ficou a definitiva, passando a original e de gente como Iggy Pop, Otis Reading, Beach Boys, The Ventures e tantos outros...

No mesmo ano, na outra ponta do continente, um jovem sambista colocou o samba de ponta-cabeça, mudou o compasso e criou o que décadas depois seria conhecido como samba rock. Mas quando Jorgen Ben gravou Samba Esquema Novo isso não passava pela sua cabeça, tanto que ele não gosta muito da alcunha até hoje. Prefere samba novo. A primeira faixa do disco, "Mas Que Nada", ganhou diversas versões, inclusive de figuras carimbadas do jazz como Dizzy Gillespie, Oscar Peterson e Ella Fitzgerald, além dos precursores da música eletrônica, a dupla Perrey & Kingsley.

O final da década de 60 e o começo da de 70 marcaram o rock com dois lançamentos que mudaram o jeito de compor e ouvir. Em 1969 o Led Zeppelin lança seu debut homônimo, que começa com "Good Times, Bad Times" e, se não inaugura, fixa os alicerces do blues rock americano que continua até hoje em bandas consideradas indie como os conterrâneos do Kings of Leon e os australianos do Jet.

Um ano depois, uma banda de Birmingham, na Inglaterra, lançaria um disco que para muitos é a pedra fundamental do heavy metal. Além de criar alguns dos riffs mais conhecidos do rock, o Black Sabbath também deu ao mundo Ozzy Osbourne, o comedor de morcegos. Em 1970 eles lançam também um debut homônimo, cuja primeira música não poderia ter outro nome além de "Black Sabbath".

De Birmingham para Nova York, meados da década de 70. Influenciados pelos New York Dolls e pela banda de Iggy Pop, os Stooges, quatro amigos criam uma estética musical com a qual se identificam de tal forma e com tamanho apelo que adotam o nome da banda como nome artístico. Em 1976 os Ramones lançam The Ramones, que começa com "Blitzkrieg Bop" e o famoso "Hey Ho, Let’s Go!". Os ingleses podem ter criado a estética e a ideologia do punk, mas nesta os americanos saíram na frente.

Essa lista está bem resumida e deixa de lado muitas outras boas primeiras faixas de tantos outros bons primeiros discos, sem contar que ignora EPs e singles. Mas como o espaço e o tempo devem ser usados com parcimônia, encerro a lista com um lançamento recente que foi um suspiro na música assim chamada de independente.

Em 2004, quando a onda do can-rock estava surgindo, uma banda formada por oito integrantes surgiu com um álbum denso, sensível, que faz a gente pular e chorar. Funeral, o debut do Arcade Fire, que começa com "Neighborhood #1 (Tunnels)", é um bom exemplo de que o rock pode não ter morrido como muita gente faz questão de proclamar.

O set list de hoje fica assim, curtinho mesmo:

Led Zeppelin - Led Zeppelin (1969) - Good Times Bad Times
Black Sabbath - Black Sabbath (1970) - Black Sabbath
The Kingsmen - The Kingsmen in Person (1963) - Louie, Louie
The Ramones - The Ramones (1976) - Blitzkrieg Bop
Arcade Fire - Funeral (2004) - Neighborhood #1 (Tunnels)
Jorge Ben - Samba Esquema Novo (1963) - Mas Que Nada



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