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O Último Refúgio

Segunda, 7 de Abril de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Ligo pro celular do João, meu amigo. Ele atende rapidamente, como é o costume dos habitantes cosmopolitas de grandes centros urbanos.

- Alô-ô! - ouço, com eco.
- João! Tá no elevador? - pergunto, sem eco.
- Não-ão!? - responde, estranhando minha pergunta, novamente com eco.
- Tá na igreja?
- Também não-ão... - responde hesitante, com um eco menos firme.
- Então tá cagando, hein, seu viado? - concluo o diálogo.

Não foi a primeira nem será a última vez que surpreendo alguém no banheiro falando ao celular. É mais um sintoma nítido de como estamos sempre com a cabeça em outro lugar, com a atenção repartida, com a mente estraçalhada pela ubiquidade de estímulos sensíveis.

E a sociedade compactua. O primeiro absurdo que vi foi o celular em sala de aula. Sei que colégio sério resiste, mas no ensino superior, mestrado e assim por diante, é duro controlar o fluxo de mensagens de texto ou conversas telefônicas disruptivas em meio à classe. O cúmulo é a nova moda que agora até os mestres atendem o bichinho durante aula!

Em seguida são os almoços de família. Foi-se o tempo em que um almoço de família era um evento sagrado. Lembro-me, quando criança, que minha mãe sequer atendia o telefone durante as refeições - fixo, crianças, não existia celular, believe me! Hoje em dia - me digam se estou mentindo - nem no primeiro encontro romântico no Terraço Itália o casal pensa em desligar o grilo falante que levam em seus bolsos - e em sua consciência??

Por isso digo: há um limite para essa história. E esse limite é a porta do banheiro.

As casas e apartamentos da cidade grande são permeados pela poluição sonora que vem das janelas, televisores, rádios e mp3 players; o ambiente de trabalho não guarda nenhum tipo de reserva para o desenvolvimento pessoal; as desacreditadas igrejas, ultimamente, só são lembradas nos casamentos e funerais; onde mais podemos, então, contemplar, apreciar nossa solidão e silêncio?

No toalete.

É por isso que sou fortemente contra atividades paralelas no toalete. Certa vez visitei um toalete que tinha até um televisor, lembro que vi o segundo tempo da prorrogação em que o Brasil tomou couro da Nigéria nas olimpíadas de 1996, sentado no vaso. Mesmo assim acho que o técnico fez mais cagada que eu naqueles tristes 15 minutos.

Talvez tenha sido naquele momento que me ocorreu que o toalete deve ser um lugar sagrado, sem distrações, em que a pessoa deve cuidar de si mesma, centrar-se. Por isso, conclamo a todos que gritem comigo:

Chega de ler jornal ou quadrinhos no trono!

Chega de tomar banho ouvindo música!

Chega de a mulher secar o cabelo enquanto o marido faz xixi!

Chega de pixar a porta do banheiro enquanto limpa a bunda!

Chega de publicidade com mulher seminua no urinol do boteco!

Chega de trepar na pia depois da guerra de pasta de dente!

Chega de espremer espinha enquanto escova os dentes!

E viva o toalete, nosso último refúgio.



O Aloísio que não é do campo é o Aloísio da Cidade | 8 leitores já mijaram neste póst