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O ÚLTIMO METRÔ DA HUMANIDADE
O ÚLTIMO METRÔ DA HUMANIDADE
Segunda, 8 de Janeiro de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Se você não tem concreto líquido correndo nas veias, talvez não entenda exatamente o significado deste fenômeno bem paulistano...
E como ainda não decidi fugir da cidade, me resta apenas observá-lo, sempre que embarco no mais autêntico meio de transporte de São Paulo, o metrô. Por autenticidade, entenda: são trens que correm muito, perfurando as entranhas da cidade. Na superfície você quase não os vê ou, se os enxerga, é apenas de relance, em alguns pontos da metrópole. Mas, o mais comum é você apenas sentir seus tremores e escutar os uivos, produzidos quando o metal encontra mais metal sob o solo.
Porém não é do metrô, de seus guinchos e pequenos estrondos, que quero falar. É do fenômeno, prefiro me concentrar apenas no fenômeno. O ÚLTIMO METRÔ DA HUMANIDADE. Foi como o apelidei e é, assim, em maiúsculas, que sempre me refiro a ele.
Como qualquer fenômeno, ele não ocorre sempre, não tem momento exato, tampouco local correto para ocorrer. Ou melhor, local tem, sim. Claro, é sempre próximo ao metrô. Mas mesmo isso varia, podendo ser bem perto do vagão ou um pouco mais afastado, ocorrendo no início da escada rolante. Preferencialmente, costuma ocorrer com mais freqüência neste último, como entenderão mais adiante.
Imagine. Você seguiu a fila, esperou sua vez chegar, inseriu o bilhete (ou aproximou o bilhete único do sensor) e passou pela catraca. Andou acompanhando e acompanhado pelos demais até as escadas que levam à plataforma. Neste momento você percebe, há uma composição parada lá. O que você desconhece é há quanto tempo ela já está ali e, pior, não faz idéia de quanto tempo ela permanecerá antes de partir.
Você se impacienta ao pensar, "caceta, perdi o trem", mas olha pro lado e observa de canto de olho. E aí ocorre a revelação. Pode ser uma mulher arrastando os filhos pelas mãos ou um homem feito, pode ser um velhote ou um casal adolescente. Não importa, o que interessa é o que ocorre no canto do seu olho. A(s) pessoa(s) se lança(m) escada abaixo – ou acima –, ziguezagueando enquanto pede(m) licença aos que estão à frente. Pode(m), ainda, deixar a educação de lado e, cheio(s) de desespero, empurrar todos ao redor para atingir(em) seu objetivo, que é bem simples, aliás. Pegar o metrô. Por que? Porque, oras bolas, porque se trata dO ÚLTIMO METRÔ DA HUMANIDADE, não se engane.
Sim, haverá outra composição chegando daqui a três minutos, mas tente explicar isso para quem é atingido em cheio pelo fenômeno. Impossível.
Já vi uma senhora se atracando com marmanjos enormes, atirando o grupo inteiro no chão da estação Sé para pegar o trem com destino à Corinthians-Itaquera. Soube que um dos garotões sofreu traumatismo craniano até. Presenciei um pai esquecer os filhos pequenos em sua corrida alucinada para chegar à plataforma com destino à Barra Funda. Ele foi, as crianças ficaram. O fenômeno é assim, capaz de destruir famílias para sempre.
Eu mesmo, confesso, já senti muitas vezes uma comichão interna tomar forma quando descia para pegar o metrô na estação Saúde, rumo ao trabalho. Gases? Não, porque lembro da sensação vir seguida de um voz, que retumbava dentro da minha cabeça: "O ÚLTIMO METRÔ DA HUMANIDADE", é "O ÚLTIMO METRÔ DA HUMANIDADE"...
Hoje mesmo isso ocorreu com força. Cheguei a iniciar a corrida que devorou degraus, primeiro aos dois, depois aos três, ameaçando me derrubar numa queda de fraturar e esmigalhar todos os ossos. Avancei, deixando os meros mortais para trás, com seus olhos esbugalhados. Mas a poucos metros, ouço o terrível som que indica o fechamento iminente das portas. Não vai dar, vai dar, não vai dar, vai dar. ...não deu...
Lá se foi ele, O ÚLTIMO METRÔ DA HUMANIDADE pelo túnel, com seus urros de metal, a caçoar de mim.
Fiquei parado lá por longos três minutos. Chegou outro trem, entrei, cheguei um pouco atrasado, mas estou aqui, relatando isso tudo para vocês.
Acho que dei sorte. Afinal, de fato, aquele não era O ÚLTIMO METRÔ DA HUMANIDADE.
Sim, havia outra composição chegando três minutos depois. Mas vai saber, né, nunca se tem certeza absoluta dessas coisas. Não dá para arriscar. Da próxima vez corro bem mais.
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