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O sexto sentido

Sábado, 19 de Janeiro de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Quando mergulho no mar, num rio ou numa piscina e começo a dar braçadas e pernadas sinto um grande bem-estar. O sincronismo dos movimentos com a respiração leva-me, espontaneamente, a um grau de concentração que me transporta para um outro lugar. Não para um diferente espaço aquático e sim para uma outra vida, uma espécie de outro “eu”. Um “eu” aberto para o mundo, sem máculas ou convicções, e mais próximo do que eu gosto de ser, mas que geralmente não encontro condições para tal.

Dr. Julius Hertzfeld, psiquiatra renomado e personagem do livro A Cura de Schopenhauer (Irvin D. Yalom, editora Ediouro), ao ter um tumor maligno diagnosticado, sai em busca de um sentido para a vida. Decide então reencontrar um antigo paciente, obcecado por sexo, e que em três anos de análise aparentemente não mostrou nenhum progresso.

Sem saber ao certo o porquê dessa decisão, Hertzfeld parece querer corrigir um suposto fracasso para, assim, poder morrer em paz. A interessante trama, rica em citações filosóficas, ocorre num provável último ano de vida do psiquiatra, o que torna tudo mais urgente e à flor da pele.

Não vou contar detalhes ou tentar explicar o nome do livro, tampouco expor o final do romance, pois, quem ainda não leu, jamais perdoaria essa desfaçatez.

O que pretendo abordar nesse texto é a necessidade que muitos sentem de buscar um sentido para a vida. Por que algumas pessoas passam toda a existência acreditando que o “auge está por vir”, que “o presente é apenas uma preparação para um grande acontecimento futuro”? Não seria isso ambição? Ou, talvez, ingratidão? Ou, quem sabe ainda, ingenuidade?

Ao final da vida, não é de se surpreender que a ausência de um sentido maior possa gerar angústia. Schopenhauer acredita que “a vida não é senão o momento presente, que está sempre sumindo e, finalmente, se acaba”. Por essas e outras, ele é considerado um filósofo pessimista. Essa característica, porém, não diminui em nenhum aspecto o valor da sua obra.

No livro, Julius Hertzfeld monitora um grupo de terapia. Os “avanços” de cada um dos pacientes, especialmente do seu antigo paciente reencontrado, Philip Slate, passam a dar o sentido que ele precisava para alcançar a paz. Seria Julius uma espécie de “santo” cuja missão na vida é ajudar os outros? Ou seria ele um egocêntrico manipulador, que usa quem for preciso para resolver seus próprios dilemas? Ou quem sabe, nenhum dos dois. Apenas um ser humano, com seus erros e acertos.

Difícil garantir se algum paciente de fato encontra a cura. Nem mesmo é possível confirmar se algum deles obtém um “avanço” significativo, ao longo da trama. Provavelmente todos. Talvez nenhum. Julius parece que sim. De qualquer forma, toda análise é subjetiva.

Sempre que busco o refúgio da natação, mergulho em águas calmas. Deixo minhas ansiedades e máscaras de lado. Ali, não viso aplausos ou críticas, nem mesmo estou em busca de respostas ou de novas interpretações. Tudo vai suave e natural, como eu gostaria que sempre fosse e não é. Flutuando pela minha própria existência; lavando o corpo e a alma. Naqueles instantes, singelos, sinto que chego o mais perto possível do sentido para a minha vida. Quem sabe, esteja pairando ali mesmo. Ora ao alcance dos olhos, ora um pouco submerso.



vem que é bão com a Rogéria | 7 vieram