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O retorno do Incrível Henrique Manuel, II
O retorno do Incrível Henrique Manuel, II
Sábado, 6 de Outubro de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Quando o Incrível Henrique Manuel deixou a província, sabia que causaria grande comoção. Sabia que todos ansiariam pelo o seu retorno. E assim, seu retorno seria triunfante e estrondoso. Ele estava certo, mas, a exemplo do ocorrido com Jango: alguma coisa deu errado.
Ao entrar pelas ruas da província, aqui mesmo no Pinheiros, esperava ser reconhecido logo no primeiro passo. Dois quarteirões depois chegou a duvidar que estivesse no lugar certo. Casas mudaram de fachada, de tamanho, de tipo, outras foram substituídas por prédios e pouca coisa estava como era. Ao ver o bar do Seu Hashimoto no final da rua, em um misto de alegria e tristeza, percebeu que não havia errado no lugar, mas sim no tempo.
Entrou no bar que parecia o mesmo, exceto pelo velho pigarrento e grisalho olhando o nada no canto do bar. O atendente não era mais Hashimoto, era jovem demais para tal. Os olhos eram os mesmos, talvez fosse um filho temporão ou um parente vindo do norte do Paraná ou de outra colônia nipônica.
O pote de rolmóps(*) escuro estava lá, onde sempre estivera. Mantendo uma coloração escura e opaca como se estivessem ali desde à época em que o Incrível Henrique Manuel deixou a província. Se é que não estavam. Olhou ao redor procurando o cão fila empalhado que havia deixado ali antes de ir embora. Então o jovem mestiço lhe oferece seus serviços. Pede o de sempre: um Underberg menta com Bitter Àguia em um copo americano grande e meio limão espremido junto.
O atendente, por algum tempo, manteve-se inerte com a testa franzina sem nada falar. Parecia estar processando aquela informação. Então, de supetão pega um copo e prepara o pedido. Serve com alguma firmeza o copo transbordante daquele líquido preto-esverdeado. Tenta puxar conversa:
- “o senhor não é daqui, né?” - “Não mais”. - “Está de passagem?” - “Sempre”. - “Não gosta de falar muito, né?”
Em segredo, enquanto olha para todo o bar e percebe que seu cão não mais está ali, apenas deixa a nota de dois reais sob o copo e sai, levando consigo a tristeza por não ter achado o seu cão, sem nada dizer.
(*) Rolmóps ou Rolmópis é uma iguaria que consiste em um ovo de galinha envolto por uma sardinha salgada e um pedaço de cebola, tudo espetado por um palito de dentes, que fica mergulhado em conserva de vinagre e/ou óleo e sal, até ser comido.
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