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O que se pode tocar*
O que se pode tocar*
Quinta, 18 de Janeiro de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
A fila parece uma estátua congelada há séculos. Quando digo que a vida é sempre esperar por alguma coisa, falo deste descontentamento constante e cortante com (contra?) o presente. Tomara que amanhã o tempo melhore. Ano que vem quero fazer uma viagem das grandes, maior que esta. Se eu aparecer na festa sexta-feira, quem sabe não me apaixono por alguém? E a espera, eterna espera, é a muleta que adia a felicidade. São os óculos fracos que servem apenas para atrapalhar a visão. São os dias escorregadios escapando entre a perdição da rotina.
Espera, espera... E nada. Porque quando alcança aquilo que esperava, seus desejos já mudaram de lugar. Foram parar do outro lado do mundo, na Nova Zelândia. Talvez tenham até mudado de planeta. E você olha para dentro do peito e encontra uns estilhaços no meio de um jardim florido, mas quem diz que enxerga as flores? Tudo o que vê são os restos da bala estourada, porque é só isso que seus olhos em preto e branco são capazes de enxergar. A tal felicidade, aquela lá que você espera – ou que te espera em algum lugar – fica cada vez mais distante. Corre de ti em fuga, esconde-se debaixo da lama e desaparece. A felicidade não quer saber de você, porque, no fundo, você também não quer saber dela.
Aquele momento de êxtase é só isso: um momento. Mas você quer e deseja e reza e torce para que ele, o tal momento, transforme-se em uma vida. Esta seria a definição da felicidade plena, a que todos querem encontrar, aquela que fica guardada na mesma prateleira da estante onde estão as soluções para cada um dos seus problemas. Mas, caso chegue lá, você vai ver que, junto das soluções, a prateleira guarda também alguns novos problemas, para que você tenha que subir degraus ainda mais altos para resolve-los. E, assim sem fim, você sempre espera e espera por algo, sem se dar conta de que a felicidade é o jardim florido onde estão os restos de pólvora. Os momentos de felicidade intensa são simplesmente aqueles em que seu desfoque visual não permite que você enxergue os fragmentos do festim. Assim é.
Nós somos o imediato. O que está ao alcance, o agora. Amanhã eu não sei. Mal sei hoje, mal sei daqui a pouco. O mais próximo que se pode chegar do paraíso é transformar o pouco e o banal em um momento imprescindível ao resto da vida.
* Esta coluna contará substancialmente com textos de humor, mas não por acaso começa com uma exceção.
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