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O Nauta e o ET

Quarta, 12 de Setembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

    Veio ao mundo não como de costume, mas caindo livremente entre as nuvens alaranjadas de uma noite fresca, atingindo o solo numa pancada violenta absurdamente despercebida pelos moradores das redondezas.

_ Estava simplesmente observando esse planetinha fedido quando os botões de prótons saltaram da mesa de lítio e quase me acertaram a testa! Só pude ver que estava caindo após alguns segundos de espanto frente ao computador de bordo central.

Uma criatura estranha e verde, pequenina e magra mas com uma cabeça gigantesca, assim como a do Nani*, tentava entender o que havia acontecido:

_ Sei que minha missão era desenhar trotes nuns campos de milho e tal, mas antes mesmo de localizá-los perdi o controle deste pau-velho caindo aos pedaços. Droga de modelo Uraniano! Preciso sair e ver onde caí.

Abriu a escotilha superior, posto que a nave estava de ponta-cabeça, e foi saindo pelas luzes e fumaças dos gases do escapamento plutônico. Foi então que pôde dar uma bela olhada ao seu redor: ruas calmas de uma madrugada de terça-feira, luzes alaranjadas pelos postes das calçadas, algumas árvores embalando-se ao vento fresco e poças de chuva no chão. Rastejou seu frágil e alongado corpo através da grama molhada e levantou-se tentando sacudir a sujeira e a lama do traje espacial.

_ Puta que pariu! Esqueci de colocar o capacete! Se esta merda de ar fétido estiver contaminado, meu dias estão contados! Mas tudo bem, gás que não mata, engorda.

Procurou um sinal de vida, já ciente de que estava em alguma região do hemisfério sul, provavelmente no sudeste brasileiro. Empurrou a amassada, leve e pequena nave espacial de reconhecimento e desenhos artísticos em vegetação para trás de um arbusto esbelto e rechonchudo, entre as cercas de uma garagem aberta, quando ouviu um ruído estranho e rapidamente procurou identifica-lo entre as construções residenciais. Pôde observar a cortina do primeiro andar de uma casa branca, movendo-se enquanto o vestígio de uma lanterna era apagada.

_ Ufa! Vida inteligente e acordada. Vou fazer contato e pedir para usar o telefone.

Mal conseguiu dar os primeiros passos pela nova gravidade em direção à campainha da casa em questão e foi surpreendido pelo caminhão do lixo reciclado da Semasa, que vinha descendo a rua em velocidade alarmante, com seus catadores alvoroçados e ligeiros, fazendo a quietude da paisagem transformar-se nos latidos e uivos histéricos dos cachorros do quarteirão. Escondeu-se sob um dos carros na garagem aberta e pode observar, num momento de adrenalina e desespero, a placa do caminhão, os outdoors das proximidades, os números de telefone nos panfletos fixados aos postes. Tantos quatros, tantos santos... Não conteve a garganta no berro que se seguiu na língua dos ETs:

_ Grawderstechnichestes, lwuatamph ihorrortes! Khraitcho ABC!

Traduzido como: Socorrooooooo, que caralho! Estou no ABC!

 

 


*Nani – Alexandre (Nani) Lima - Compositor e guitarrista da banda Lagunna. Também conhecido mundialmente pelo tamanho e a espessura de sua caixa craniana anormal. Sua foto é exibida como “procurado” em lojas de chapéus e gorros de todo o Brasil.

    

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