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O Legado

Segunda, 16 de Julho de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

O xixi matinal, aquele acumulado da preguiça de sair do quentinho no meio da noite, é o melhor momento para treinarmos escrever nome e sobrenome na aguinha do vaso. Com um sorriso maroto no canto da boca, tento fazer o bom humor pegar no tranco antes do sol firmar.

No xixi desta manhã, enquanto eu treinava, pra variar um pouco, minha assinatura no vaso, me ocorreu que esta prática – juntamente com escovar os dentes com a mão esquerda, fazer a barba com sabão de coco, ler Quino ao evacuar e nunca falar “evacuar” a não ser que seja diante de um médico ou escrevendo na redação do colégio – eram pequenos hábitos de toalete que eu havia herdado de meu pai.

Evidentemente meu pai me ensinou coisas muito mais relevantes, mas talvez não tão inspiradoras para o dia a dia como uma tira da Mafalda ou não tão alto-astral como escrever o nome no vaso com xixi. Agradeço e devo a meu pai as lições de hombridade, a valentia, a honestidade, o brio, a riqueza de espírito, a honestidade, a generosidade, o altruísmo, o respeito ao próximo, o inestimável carinho pelos filhos. Agradeço ter um modelo a almejar, enquanto eu programo minha futura paternidade.

São muitas coisas grandiosas que queremos passar adiante, que queremos perpetuar em nossos filhos e acredito que nossa tendência é projetar muitos ideais e impor metas grandiosas para os rebentos. Não vejo mal nisso. Qual o problema de desejar melhorar os arredores? Pelo contrário: acredito que é, efetivamente, o propósito último de procriar.

Pressupondo que eu gosto de mim mesmo, acho que a melhor coisa que tenho a fazer na vida é fabricar ‘mini-eus’ para tentar que eles sejam um ‘eu’ um pouco melhorado e, em última estância, em alguma medida, melhorar o mundo deles. Esta é a esperança do homem social: de que seu legado – intelectual, biológico, cultural etc. – tenha alguma utilidade para o amadurecimento da humanidade.

Mas o propósito desta crônica é apontar que, não obstante tais grandes ideais, é fundamental lembrar de passar adiante também as pequenas coisas entre pais e filhos. A graça, o carinho, a saudade associados à lembrança de um daqueles pequenos momentos pode não ter a menor importância para a humanidade, mas é da maior importância para o humano.


O Aloísio que não é do campo é o Aloísio da Cidade | 4 leitores já mijaram neste póst