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o gato que pensa

Domingo, 7 de Outubro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

    Chegar tarde em casa não era nenhuma novidade. Às vezes vinha da noite, às vezes vinha do dia, do dia de trabalho que, não raro, invadia a noite. Às vezes também, o dia de trabalho saía do estúdio de gravação e rumava até a noite, com mais dois fiéis companheiros da labuta, mas logo os celulares tocavam, as esposas chamavam e eu me via sozinho com a conta na mão, olhando a saideira nos olhos e ruminando se implorava mais uma ou voltava para casa. Para Rachmaninoff.

No mais das vezes, voltava para casa. Para Rachmaninoff.

Com um copo de whisky com pouco gelo, uma água com gás, um charuto, lápis e partituras, eu sentava ao piano e acordava Rachmaninoff, que se espichava pelo teclado, recebia meus afagos e descia para o chão, pois sabia que era a minha vez. Rachmaninoff era lindo. Talvez fosse uma das poucas criaturas que eu conhecia que podia se espichar por duas oitavas e meia. Isso numa mera espreguiçada. Ele sorriu ao me ver, como de hábito se espreguiçou, se enrolou nas minhas mãos e desceu para o chão, para me observar trabalhar.

Abri as partiuras, a água, o whisky, a embalagem do charuto e uma escala jônia. Linda, linda. Comecei com uma valsa de Brahms e logo me perdi da partitura onde eu deveria imprimir uma trilha sonora para uma loja de brinquedos. Traguei do charuto. Bebi a água. O whisky eu levantei do tampo do piano mas não consumi. As marcas dos muitos copos de whisky na madeira velha pareciam círculos na flor da água quando chovia. Uma chuva de verão.

- Vem cá, Rachmaninoff. Senta aqui.

Rachmaninoff sabe das coisas. É inteligente pra caralho e sabe exatamente a hora de dizer algo inteligente e a hora de calar. Ele percebeu que eu havia investigado os círculos que a chuva de copos de whisky fizera no piano da minha vó e me olhou. Ele dividia a opinião de todos sobre meus hábitos etílicos, mas não comentou. Ele sabia que não adiantava falar nada. E, esperto, sabia que não era isso que me incomodava.

- É, Rachmaninoff. ‘Tá foda.

Ele sabia. E passivamente me olhou e esperou eu chegar à conclusão que a culpa era minha mesmo.

- Eu juro que eu queria fazer o mundo entender o quanto eu me arrependo. Olha, você sabe, eu nunca... Não é, bem... Eu...

Não sabia como colocar aquilo em palavras.

- Que tal eu te começar a te explicar desde o começo?

Ele virou o rosto. Não estava interessado no começo das coisas, o começo ele conhecia.

- Ok, te conto o final. Estou sozinho. Estou arrependido. Estou culpado. Estou me sentindo o pior ser humano da face da terra. Traí o amor.

Ele parecia sorrir. Era tímido o sorriso, mas era um sorriso. Dediquei a observar a fumaça do charuto subir alguns momentos. Ele continuava a olhar para mim.

- E eu não tenho argumento de escapatória. Não tenho defesa... – Exasperei-me, quis consertar – Mas olha, se ao menos eu pudesse...

O sorriso dele retesou-se e se ele tivesse a habilidade, teria erguido uma única sobrancelha. Bicho esperto...

- Ao menos nada. Você tem razão. Que direito tenho eu de me defender? Eu menti, enganei, traí e pronto. E agora estou carregando toneladas de culpa por causa disso. O que eu faço com essa culpa, Rachmaninoff, o que eu faço com o arrependimento? Sabe, eu tentei pedir muitas desculpas, eu não queria ter causado tanta dor. Ninguém sabe o quanto eu não dormi me revirando na cama. Quantos dias eu fiquei sem apetite nenhum... Eu perdi cinco quilos, porra!

Ele nem pestanejou. Apenas me devolveu uma expressão simbólica: se fode aí. Todo cheio de razão, ele. Eu que me foda. Eu que me foda com as minhas dores. Não é como se eu fosse o único mártir a carregar dor por aí. Não é como se eu fosse crucificado pra salvar a humanidade do pecado.

- Não tem saída, né? Vou ter que atravessar essa sozinho, não é?

Ele espiou meu copo, cheirou-o e olhou-me, lambendo os beiços.

- É, obrigado. Eu tenho você. Obrigado. Olha, se pedir desculpas, adiantasse, e eu pedi, muitas, precisava que soubessem que eu estou arrependido, mas... Lógico, meu arrependimento não diminui a dor de ninguém, não é?

Ele já não estava mais prestando atenção. Procurava algo nos círculos dos copos no tampo do piano.

- Chega de falar sobre o fim da história. Vamos pensar no futuro, talvez, o que acontece daqui para frente?

Ele não me olhou. Não havia nada no futuro. Ainda. É cedo para pensar no futuro, claro. Ele sabia. Espertinho, filho da puta.

- Que tal o passado? O começo? – Agora sim ele me olhava e esperava o que eu tinha para dizer. Não ansioso, mas esperava - O fato é, eu traí. A pergunta é: por que? Por que Rachmaninoff, por que?

Ele sorriu zombeteiro e desviou o olhar para cima. Deixava claro que a pergunta não era para ele. Era para mim mesmo. Maldito bom amigo, cuja a única função às vezes é simplesmente ser um espelho. Um dia ainda pego esse viado pelo pescoço e lhe dou um chacolhão.

- Você não entende, Rachmaninoff, eu não sou isso, não sou um filho da puta, foi um erro, mas, claro que eu sabia o que estava fazendo, claro que sabia as conseqüências, mas foi só um erro. Eu sabia que ía perder tudo o que eu vinha construindo... Eu não sou isso, isso não me define, eu não consigo me reconhecer. É como se eu olhasse para outra pessoa.

Ele, nada.

- Você não vai me ajudar?

Impaciente, vendo que eu não deixaria de rodar ao redor da minha culpa, inclinou seu rosto agressivamente para mim e eu tenho a impressão que ele estava prestes a mostrar os dentes.

Recuei.

- Fui eu, eu sei, mas o que eu fiz? Por que eu fiz?

Sua cara piorou. Estava bravo comigo. Pulou para o chão e rodou pela sala exígua. Não queria me dar atenção. Levantei do piano e desabei com o copo de whisky e o charuto na única outra peça do cômodo, uma poltrona velha com uma perna menor que as outras três. O tecido delgado já abrira espaço para a espuma de forração brotar como água de nascente.

- Sou eu, claro. Sempre eu. Sempre eu me sabotando. Eu que não quis dar espaço para mais ninguém na minha vida. Eu que não queria mudar minha vida. Eu que não queria assumir para mim mesmo que eu estava feliz e não precisava de mais nada. Eu que não queria abandonar o sonho de ficar enfurnado nesse loft improvisado. Eu que não queria deixar de mentir para mim mesmo. Eu que não queria me dar ao direito de ser feliz e continuar vivendo esse mega clichê.

Estiquei as pernas até o banco do piano da minha vó e afundei na poltrona velha. Enquanto eu lembrava da minha querida vózinha rabugenta que não me deixava chegar nem perto do precioso piano dela quando eu era criança, Rachmaninoff voltou para mim, sua fúria abrandada. Ele sentava no banco ao lado das minhas pernas. Olhou para o instrumento e para as minhas memórias de infância que ficavam ao pé dele. Em mais de uma ocasião eu pensei em aprender a tocar só de birra, só para provar para a minha vó que eu era melhor que ela e o piano dela.

- Mentira, Rachmaninoff, o grande lance foi a mentira. – Da cabeça afundada no peito, levantei um olho para ver se ele concordava. Sim, ele concordava, mas pedia mais. – Menti para mim mesmo e aproveitei e menti para os outros também. Poderia ter sido honesto. Se ao menos eu tivesse sido honesto...

Ele sossegou. Estava satisfeito.

Vai aí uma bela lição de amor: fiz uma faculdade e dediquei uma vida a ser melhor do que a minha vó ao piano. Que bela conquista. O melhor de tudo foi descobrir cedo na vida que esse piano velho é uma bela bosta e não vale um centavo a mais do que a poltrona que eu cubro agora de cinzas de charuto.

No entanto, aí está o piano, com suas cicatrizes. O som é horrível. O “lá” da terceira oitava está começando a falhar. As notas agudas quase não fazem som. A madeira velha começa a ceder. E aí está ele. Não consigo e nem quero perdê-lo.

E aqui estou eu, fazendo cagada e me atendo a mim mesmo, preservando a todo e qualquer custo meu jeito boêmio e fora de moda de ser. Mesmo que isso queira dizer causar tanta dor.

Inteligente mesmo, é o gato.

coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Um comentário por misericórida!